A dedicação, carinho e amor com que uma mulher cuida de duas pessoas com deficiências há cerca de 10 anos transformou o seu trabalho em uma grande família.
Há quase 40 anos, Ilva e Albina, na época com 8 e 10 anos, foram encontradas em um pequeno cômodo em condições subumanas na Linha Adolfo Konder. Elas moravam com o pai e sofriam abusos dos mais variados. Por terem deficiência mental e física, as duas não podiam se defender e ficavam à mercê da ajuda de vizinhos por vários dias, enquanto o pai trabalhava fora.
As damas de caridade Ornilda Busatto e Gladis Fontana foram informadas da situação de Ilva e Albina e, a partir de então, iniciaram os cuidados. Quando retiradas do local em que estavam, as meninas foram encaminhadas ao hospital para exames e internamento. Na época, os médicos emitiram laudo no qual diziam que elas viveriam apenas 20 anos.
As Damas de Caridade então firmaram parceria com a Prefeitura para que fossem fornecidos cuidadores e as meninas tivessem condições de vida. Nos primeiros meses várias pessoas passaram pelo local, mas logo saiam por falta de adaptação.
Até que a mãe da atual cuidadora, Lídia Gongolewski, foi chamada para trabalhar na casa e é ai onde a história de vida das meninas se cruza com mãe e filha.
Quando a sua mãe começou a trabalhar com as meninas no dia 28 de dezembro de 1979, Lucimeri tinha apenas 12 anos e desde então foi criada de igual para igual com Ilva e Albina. “Foi o melhor fim de ano de nossas vidas, porque eu minha mãe e minha irmã conseguimos ficar juntas e a Ilva e Albina tinham pessoas que as cuidassem”, lembra a atual cuidadora, Lucimeri.
Desde então, Ilva e Albina fazem parte da família da qual elas tanto precisavam. “Elas tinham uma casa e não tinham família, nós tínhamos uma família, mas precisávamos de uma casa, isso nos uniu”, citou Lucimeri.
No começo as meninas comiam com as mãos e não tinham nenhuma noção de alimentação e higiene. Hoje, elas não conseguem comer sozinhas, mas em um tempo que estavam com a coordenação motora menos afetada, se sentavam junto à mesa com toda a família. “Elas nunca conseguiram comer com garfo e faca, mas nós conseguimos fazer com que elas sentassem conosco junto à mesa”, conta Lucimeri.
Houve uma época em que era a Ilva que ajudava a mãe de Lucimeri a secar a louça. “A Albina nunca gostou disso. Já a Ilva, a mãe lavava a louça dava um pano e ela secava”, relembra.
Pouco tempo depois, na enchente de 1983, passaram um dos piores momentos de suas vidas, quando perderam tudo que tinham em casa. Lucimeri e sua irmã ainda eram crianças e junto com as meninas, totalmente dependentes da mãe, mas naquele momento foram fortes o suficiente para superar e reconquistar tudo novamente.
Há 10 anos Lucimeri é quem cuida das meninas, depois de sua mãe ter se aposentado. Antes disso, ela se casou, teve 3 filhos e depois de se separar prestou concurso público para auxiliar de serviços gerais na Prefeitura no qual foi aprovada. “Eu tive que fazer este concurso para poder cuidar delas ou contrário ela iriam para outro lugar e eu não queria isso”, diz Lucimeri.
Os filhos de Lucimeri conviveram a vida toda com as meninas. “Quando minha filha mais velha nasceu, ela tinha um carrinho e quem a embalava e a fazia dormir eram a Ilva e a Albina”, lembra.
Lucimeri conta que trata seu trabalho como uma verdadeira família. “Esse não é um trabalho, pra mim elas são minhas irmãs, nós nos criamos juntos”, diz a cuidadora.
Segundo Lucimeri hoje em dia ainda existe muito preconceito, mas isso não atrapalha a família. “Se eu sair de cadeira de rodas com elas na rua tenho que parar porque o trânsito para, mas para os meus filhos isso não existe pois são todos iguais”, relata. “Não somos só nós que contribuímos com elas, elas também contribuem muito conosco”, salienta Lucimeri.
Albina e Ilva hoje têm 42 e 44 anos, superando as expectativas dos médicos que disseram que iriam viver apenas 20 anos. Isso se explica pelo cuidado com que são tratadas, e acima de tudo o amor e carinho que recebem da família que formam hoje. “É uma família”, finaliza Lucimeri.









