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Uso excessivo do celular pode agravar dores no polegar e no punho

Gabriel Malheiro

Gabriel Malheiro

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Movimentos repetidos para digitar e rolar telas reativaram uma inflamação dos tendões do polegar que a medicina conhece desde o fim do século 19.

O gesto se repete dezenas de vezes por hora. O polegar desliza para cima, pressiona a tela, volta, digita uma mensagem, abre outro aplicativo. Para a maioria das pessoas é um movimento automático, quase invisível. Para os tendões que comandam o dedo, é uma sobrecarga que se acumula ao longo do dia.

O brasileiro passa em média 9 horas e 13 minutos por dia conectado, segundo a pesquisa Consumer Pulse, da consultoria Bain & Company, realizada em janeiro de 2025. Desse total, 3 horas e 37 minutos são gastos em redes sociais.

O país tem cerca de 1,2 smartphone por habitante e ocupa o segundo lugar mundial em tempo de tela, atrás apenas da África do Sul. Boa parte desse tempo passa pela ponta de um único dedo.

O efeito começa a aparecer nos consultórios de ortopedia. Dores na base do polegar e na lateral do punho, antes associadas a costureiras, lavadeiras e trabalhadores manuais, agora chegam em estudantes, profissionais de escritório e adolescentes. A causa mudou de nome, mas a inflamação é a mesma de sempre.

Uma inflamação antiga com sintomas novos

A tenossinovite de De Quervain foi descrita pela primeira vez em 1895 pelo cirurgião suíço Fritz de Quervain. Na época, ele a chamou de entorse das lavadeiras, porque atingia sobretudo mulheres que torciam roupas à mão, antes da máquina de lavar. O quadro é uma inflamação dos tendões responsáveis pelos movimentos do polegar, que passam por um túnel estreito na borda do punho, do lado do rádio.

“Quando esses tendões e a bainha que os reveste incham, o deslizamento dentro do túnel fica difícil. O movimento que deveria ser suave passa a doer e, em alguns casos, o polegar parece travar ou estalar. A dor se concentra no lado do punho próximo ao polegar e piora quando a pessoa segura objetos, levanta peso ou desvia o pulso para o lado”, explicam especialistas do COE, clínica de ortopedia localizada em Goiânia.

O apelido popular acompanhou a tecnologia de cada período. Da entorse das lavadeiras, o quadro passou a ser chamado de síndrome do messenger e de whatsappite, em referência direta ao ato de digitar mensagens.

Em 2020, um teste clínico ganhou o nome de teste da selfie. Muitos pacientes percebem a dor justamente ao tentar tirar uma foto segurando o celular e pressionando o botão com o polegar.

O que os números mostram

A prevalência da tenossinovite de De Quervain na população em geral é baixa, estimada em cerca de 5 casos a cada mil homens e 13 a cada mil mulheres. O problema é mais comum em mulheres entre 35 e 55 anos e tem relação conhecida com a gravidez e o período pós-parto, quando a posição do punho ao segurar o bebê sobrecarrega exatamente os mesmos tendões.

Entre grupos expostos a movimentos repetitivos, porém, os índices sobem muito. Levantamentos citados por especialistas em reabilitação apontam que cerca de 36% das universitárias de 18 a 24 anos com uso muito intenso de celular apresentam a inflamação na mão dominante. Entre costureiras, a prevalência chega a 75%. Em populações de risco, a taxa varia de 20% a 70%.

No Brasil, o terreno para o problema é amplo. O país soma 258 milhões de smartphones em uso, mais aparelhos do que habitantes, segundo a Pesquisa Anual do Uso de TI da Fundação Getulio Vargas, de 2024. WhatsApp e Instagram lideram o tempo de uso, e ambos dependem do polegar para digitar, rolar a tela e gravar áudios.

Um estudo feito na Universidade de Rio Verde, em Goiás, com 73 estudantes de medicina, encontrou teste positivo para a inflamação em 61,64% dos participantes, sinal de quanto o desconforto no punho já é frequente entre jovens.

O crescimento foi rápido. Entre 2019 e 2021, o uso de smartphones no país aumentou cerca de 64%, segundo a empresa de dados de mercado App Annie, impulsionado pela pandemia e pelo trabalho remoto.

O hábito se espalhou por capitais e cidades do interior, de São Paulo a municípios menores de Santa Catarina, e alcançou faixas etárias que antes mal tocavam em uma tela. O punho, que não mudou na mesma velocidade, é quem paga a conta.

Quando o incômodo deixa de ser passageiro

Nem toda dor no punho é tenossinovite, e nem toda tenossinovite exige tratamento agressivo. O problema costuma surgir quando o sintoma é ignorado por meses. A dor que começa leve, ao fim do dia, passa a incomodar em tarefas simples, como abrir uma garrafa, girar uma chave ou segurar uma xícara.

O perfil de quem chega ao consultório também mudou. Há alguns anos, a maioria dos casos era de mulheres no pós-parto ou de trabalhadores manuais.

Hoje, parte das consultas começa com a queixa de que a dor apareceu sem motivo aparente, sem queda, torção ou esforço fora do comum. O motivo, na verdade, está diluído em horas de uso do celular que ninguém contabiliza.

O exame físico costuma bastar para o diagnóstico. O teste mais usado, chamado de Finkelstein, reproduz a dor quando o paciente fecha a mão sobre o polegar e desvia o punho para o lado. Em casos de dúvida, a ultrassonografia confirma o espessamento dos tendões.

Quando a dor persiste por mais de duas ou três semanas, ou limita o uso da mão, procurar um ortopedista especialista em mão (cirurgião da mão) para uma avaliação detalhada faz mais sentido do que recorrer apenas a analgésicos por conta própria.

Além do polegar

O uso prolongado do celular sobrecarrega outras estruturas da mão e do punho. A síndrome do túnel do carpo, que provoca dormência e formigamento nos dedos, tem entre seus fatores de risco a repetição de movimentos e a flexão mantida do punho.

O dedo em gatilho, em que o dedo trava ao dobrar e estende com um estalo, também tem ligação com esforço repetitivo. A rizartrose, artrose na base do polegar, costuma se manifestar mais tarde, mas é agravada pelo mesmo tipo de sobrecarga.

Essas condições compartilham um padrão. Começam discretas, evoluem devagar e tendem a ser confundidas com cansaço passageiro. A pessoa troca de mão, faz uma pausa, sente alívio e segue rolando a tela, sem perceber que o tendão segue inflamado.

A vulnerabilidade do polegar tem explicação anatômica. Ele é o dedo mais usado para a pinça e o único que se opõe aos demais, função que ganhou peso extra com as telas sensíveis ao toque.

Repetir o mesmo arco de movimento milhares de vezes por dia, sempre na mesma posição do punho, mantém os tendões sob tensão constante e dá pouco tempo de recuperação ao tecido.

Quando os sintomas se repetem ou se espalham por mais de um dedo, a recomendação de buscar um médico ortopedista especialista em cirurgia das mãos ganha peso, porque o diagnóstico correto separa os quadros que respondem bem a medidas simples daqueles que precisam de acompanhamento mais próximo.

Diagnóstico e tratamento

Na maioria dos casos, o tratamento começa sem cirurgia. As medidas conservadoras reúnem repouso relativo do movimento que provoca a dor, uso de uma órtese que imobiliza o polegar e o punho, fisioterapia, terapia da mão e anti-inflamatórios. Quanto antes essas medidas começam, mais rápido o tendão tende a desinflamar.

A infiltração de corticoide é outro recurso usado quando a dor não cede. Uma única aplicação alivia cerca de metade dos pacientes, e uma segunda pode beneficiar até 45% dos casos restantes. Aplicações repetidas em curto intervalo, porém, podem enfraquecer os tendões e por isso são feitas com critério.

A cirurgia entra em cena quando o tratamento conservador não resolve. O procedimento é simples e abre o túnel por onde passam os tendões, aliviando a pressão que causa a dor. A recuperação costuma ser rápida, e a maioria das pessoas retoma as atividades normais em poucas semanas.

O ponto crítico continua sendo o tempo até a primeira consulta. Dr. Henrique Bufaiçal, cirurgião de mão, observa que boa parte dos pacientes só procura ajuda quando a dor já limita tarefas do dia a dia, fase em que o tratamento conservador exige mais paciência para responder. O diagnóstico precoce mantém o caso longe da mesa de cirurgia na maior parte das vezes.

O que dá para fazer no dia a dia

Reduzir o tempo de tela é a recomendação mais óbvia e a mais difícil de cumprir. Antes disso, pequenas mudanças de hábito diminuem a sobrecarga.

Fazer pausas curtas a cada meia hora, alternar a mão que segura o aparelho, usar o ditado por voz em vez de digitar mensagens longas, apoiar o celular em uma superfície para liberar o polegar e alongar punho e dedos ao longo do dia ajudam a distribuir o esforço.

O sinal de alerta é simples de reconhecer: quando a dor no polegar ou no punho deixa de ir embora com o descanso de uma noite, o corpo está pedindo avaliação, e não apenas um novo carregador para continuar conectado.

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