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O fedor do descaso!

Matéria atualizada às 19h53, do dia 21 de outubro de 2021, para inserção de nota da Ambipar. 

Matéria atualizada às 17h53, do dia 21 de outubro de 2021, para a inserção de nota da BRF. 

Há pouco mais de 15 dias, os moradores da linha Baia, no interior de Fraiburgo, começaram a sentir um cheiro estranho, vindo da estrada principal: parecia que havia sido derramado algo semelhante a um material podre.

Assista ao vídeo

“Parece cheiro de vômito, mas em grande quantidade”, disse um dos moradores, que preferiu manter o sigilo e, por isso, vamos chama-lo de João*. “Com o sol quente, então, fica insuportável”, completou.

Fedor do material era sentido a vários metros

No local, o motivo do fedor foi encontrado: era algo gosmento, de uma cor amarelada, que parecia ter sido derramado ali. “Pensamos, no começo, que era alguém que estava desovando material podre de aviários. Mas, depois, descobrimos a verdadeira origem”, acrescentou João*.

Para o desespero dos moradores daquela região, o material podre está vazando de alguns caminhões que passam ali diariamente.

Caminhões circulando pela linha Baia

No começo, todos eles achavam que tratava-se de algo temporário e aleatório, que logo acabaria. Mas, passou dois, 4, 6, 15 dias…

Esta denúncia chegou até o Portal Notícia Hoje e uma grande investigação foi iniciada, visando encontrar os responsáveis, bem como, buscar respostas junto aos órgãos ambientais.

Você vai ler, a partir de agora, uma grande reportagem, que acompanhou por 5 dias o vai e vem dos caminhões, a quem pertencem e de quem é a responsabilidade pelos derrames deste material fétido.

Saindo de Videira

Com as informações obtidas sobre a identificação dos caminhões, o primeiro passo foi buscar a origem do material e chegou-se até as unidades da BRF, em Videira. De lá saem, diariamente, diversos caminhões carregados com resíduos industriais.

Caminhão seguindo no contorno de Videira

Basicamente, trata-se de ovos, restos de frangos e pintinhos mortos, que devem receber o destino correto: empresas com aterros, credenciadas para o recebimento destes resíduos, para realizarem o tratamento.

E é aí que entra o motivo da passagem dos caminhões pela estrada da Linha Baia: Cerca de alguns quilômetros adiante, existe um aterro, de uma empresa chamada empresa VT. Lá é armazenado todo o material, na sua maior parte, líquido.

Entretanto, durante o trajeto, parte deste material está sendo perdida pelos caminhões. Isso foi comprovado através de imagens em vídeo, tanto lá na estrada da linha Baia quanto na rodovia SC 355, onde uma grande quantidade vinha sendo despejada no asfalto, chegando a sujar o vidro dos carros que seguiam atrás. Uma lona servia de proteção para o equipamento, o que pouco adiantou.

Caminhão derramando os rejeitos foi flagrado na rodovia SC 355
Resíduos sujaram o vidro de um veículo que vinha atrás

Em um dos primeiros dias do derramamento do material, o relato dos moradores é surpreendente: “Tem um pessoal com caminhonete aqui perto que chegou a encalhar em cima daquele material mole e fedorento. Ficaram indignados, porque a quantidade era muito grande”, contou João*.

Limpeza à noite

Durante algumas noites, segundo o relato dos moradores, caminhões hidro-jato estão realizando a limpeza da estrada. “Só que não adianta. O cheiro continua insuportável. E o pior: temos uma sanga aqui pra baixo. Tudo isso deve tá correndo ali pra dentro”, completou outra moradora, que vamos chamar de Maria** para manter o sigilo, a pedido dela.

Materiais utilizados na limpeza foram jogados na beira da estrada

Durante o trabalho, a equipe do Portal Notícia Hoje chegou avistar um destes veículos, mas somente circulando pela rodovia e não em ação. “Vieram duas ou três vezes aqui”, revelou Maria.

Próximo do local do derramamento, havia alguns equipamentos jogados, como vassouras, tubos, luvas e muito lodo, com um cheiro também insuportável.

Mangueira foi jogada na beira da estrada

Os depósitos

A reportagem foi até o depósito da VT. De acordo com o Instituto de Meio Ambiente (IMA), este local atende a todas as exigências legais. “Um aterro industrial devidamente licenciado e muito bem conduzido em termos técnicos e apto para receber o material”, afirmou o IMA, em nota, através da Assessoria de Comunicação. Imagens aéreas mostram o local, que é bastante extenso e recebe ainda os rejeitos de Campos Novos.

Aterro da VT está dentro das normas ambientais

Além deste depósito, o material é destinado para outro, mas em Passos Maia. Sede da empresa Natural Composto Orgânico, o local está recebendo rejeitos das unidades de Concórdia e de Chapecó, principalmente, de acordo com as informações levantadas de forma extraoficial.

No site do Instituto de Meio Ambiente (IMA), não há registro sobre a licença para o recebimento de rejeitos industriais das Classes 1, 2A e 2B, que são os que a BRF está destinado para lá. A única informação constante é de um protocolo, que está em análise desde o dia 20 de setembro, mas o local está operando para o recebimento destes resíduos desde o início de outubro.

Primeiro, o IMA informou que, se ainda estava em análise, o local não poderia receber o material. Depois, a informação foi de que “a equipe verificou que essa de Passos Maia está devidamente licenciada a unidade de fabricação de adubo orgânico, portanto, pode receber esse lodo”.

Aterro da Natural, em Passos Maia

Por telefone, um dos responsáveis pela empresa, João Pedro, afirmou que a Natural possui sim, todas as licenças necessárias desde o mês de fevereiro. “Se não fosse assim, a BRF nem entregaria o material para nós, eles são muito rígidos”, afirmou.

No dia 14 de outubro, a Natural foi notificada pelo IMA, através do processo 10105202168637 referente a “Instalar atividade potencialmente causadora de degradação ambiental, mediante escavação de solo para um biogestor, sem a devida Licença Ambiental de Instalação (LAI)”.

O transporte

Apesar de ter responsabilidade na destinação dos resíduos, a BRF terceirizou uma empresa para fazer o transporte. Trata-se da Ambipar, uma multinacional, com sede nos mais diversos países do mundo e que tem como embaixadora e acionista (de acordo com um vídeo institucional na entrada do site), a modelo brasileira Gisele Bündchen.

No próprio site da Ambipar, a publicidade diz: “18 países, 300 bases e um objetivo: ajudar a sua empresa a cuidar do planeta”. Na prática, pelo menos na região Meio Oeste de Santa Catarina, o lema da empresa não está sendo cumprido à risca.

Caminhão de transporte dos resíduos, de Chapecó para Passos Maia

Isso porquê, fora o que já foi apresentado, com os caminhões derramando os resíduos pelo caminho, a informação que foi levantada junto aos órgãos ambientais é de que, vários destes veículos não possuem as licenças necessárias para o transporte.

Caminhão carregado com excesso, em Campos Novos

Através da Assessoria de Comunicação, o IMA informou que as placas LPH 5080 e LPR 4314, de veículos que estão fazendo o transporte dos resíduos, não possuem licença para tal serviço. Este último, inclusive, foi flagrado na rodovia SC 355 derrubando material.

Um dos caminhões que, segundo o IMA, está trabalhando de forma irregular

A suspeita é de que, por conta desta infração ambiental, é que as outras estão acontecendo: como os equipamentos de transporte não condizem com a natureza dos resíduos, o resultado é o derramamento nas estradas e o cheiro insuportável.

Caminhão de transporte saindo de Concórdia

O que dizem os envolvidos

A reportagem entrou em contato com todas as empresas envolvidas, possibilitando o amplo direito de do contraditório, ouvindo a versão de cada uma delas. A Ambipar enviou uma nota oficial às 18h36, mas não respondeu a todos os questionamentos feitos pela reportagem. Já a BRF enviou a nota no dia 21 de outubro, às 15h26.

BRF

Nota à imprensa

A BRF informa que, assim que tomou conhecimento das alegações, iniciou imediatamente um processo de investigação, incluindo a revisão de documentos, procedimentos e solicitação de todos os esclarecimentos à Ambipar, fornecedor responsável pelo transporte do material. A empresa tomará todas as medidas cabíveis.

A Companhia esclarece que os resíduos são encaminhados a parceiros devidamente licenciados e homologados e recebem a autorização do órgão ambiental, quando aplicável. A BRF reforça que segue um rígido procedimento de auditoria presencial e documental para a homologação de seus fornecedores, que devem cumprir o Código de Conduta da Companhia.

Imagem mostra situação dentro da BRF, em Concórdia

Perguntas enviadas para a Ambipar

– O transporte, tanto por parte da Ambipar, quanto das suas terceizadas, está licenciado junto ao órgão ambiental de SC?

– Segundo o IMA (Instituto de Meio Ambiente) alguns dos caminhões que estão realizando o transporte não são licenciados. Qual é a posição da empresa quanto a isso?

– Os caminhões são identificados com as placas da natureza do produto transportado?

– Os motoristas possuem curso de MOP?

– Os equipamentos de transporte condizem com a natureza de resíduos?

– Como fazem a higienização dos equipamentos de transporte e a empresa que o faz é licenciada?

– A empresa emite o certificado de destino final para a BRF?

Resposta da empresa

NOTA DE ESCLARECIMENTO

Com relação ao incidente ocorrido na rodovia municipal FB-420, no município de Fraiburgo, a Ambipar esclarece que acionou a empresa do grupo (Ambipar Response), especializada no atendimento a emergências ambientais, assim que soube do problema. Todos os procedimentos técnicos foram adotados para resolver a situação e o resíduo, que não era tóxico, foi removido.

Ressaltamos ainda que todos os procedimentos internos de Compliance e de legislações ambientais foram rigorosamente respeitados, reforçando assim nosso compromisso na preservação e conservação do meio ambiente.

Caminhão da Ambipar que havia saído da BRF

Natural

Já por telefone, a Natural, de Passos Maia, informou que possui todas as licenças necessárias para o recebimento do material, desde o mês de fevereiro deste ano.

IMA afirma que denúncias são necessárias

Em nota, o IMA afirmou:

“A informação extra oficial que se tem é que a empresa Ambipar fechou contrato com a BRF para ter exclusividade na coleta de tais materiais, sendo de responsabilidade dessa mesma empresa em recolher esses materiais e fazer a destinação adequada.

Dependendo do processo produtivo, há geração de lodos orgânicos, que antes eram destinados para diversas empresas, devidamente licenciadas, sendo este material levado em alguns casos para compostagem e outros para aterro industrial, e agora passaram a ser de exclusividade da empresa Ambipar.

Na região de Fraiburgo, o material está sendo encaminhado para o aterro da VT Engenharia, um aterro industrial devidamente licenciado e muito bem conduzido em termos técnicos e apto para receber o material.

O problema que aconteceu nessa situação foi no transporte que acabou transbordando material em vias públicas. A informação que o IMA teve, e a própria Polícia Ambiental verificou que o material que caiu na estrada foi recolhido, sendo um lodo, que tem esse problema de mau cheiro, mas não é um produto químico perigoso. Em caso do problema persistir há de se formalizar a denúncia junto aos órgãos fiscalizadores (IMA e PMA) para que as medidas legais cabíveis sejam impostas nestas circunstâncias”.

Estrada que recebeu a lavação, na linha Baia: Cheiro insuportável!
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