A Polícia Federal monitora novas drogas, muito perigosas e fabricadas em laboratório que estão chegando ao Brasil. Parecem LSD e ecstasy, mas são muito mais potentes. O pior é que uma brecha na lei permite que a venda seja livre no país.
As drogas foram apreendidas em São Paulo e lá foi descoberta a sua existência. À primeira vista, parecem ser velhas conhecidas da polícia: LSD e ecstasy. Mas são muito mais perigosas. Drogas novas, que chegam ao país à margem da lei.
O paulista Anthony Wong, toxicologista, fala sobre os entorpecentes extrangeiros. “São drogas extremamente potentes, extremamente agressivas, são causas de morte e também de despersonalização. Ou seja, a pessoa fica de uma forma tão alterada, que, muitas vezes, não consegue mais voltar à realidade”, afirma.
São duas substâncias diferentes. A primeira é a encontrada em Santa Catarina, parecida com o LSD, tanto no aspecto quanto nos efeitos: causa alucinações intensas. “Um correu e bateu contra um carro, pensou que ele era mais forte que o carro. Outro pulou de um prédio porque pensou que podia voar”, lembra o especialista.
A outra droga lembra o ecstasy, só que muito mais perigosa. “Se provocado ou submetido a algum trauma, ele reage violentamente. Essa violência não tem controle. A pessoa é dotada de uma força sobre-humana. Ele fica com tanta força que dez pessoas não conseguem segurar”, alerta o toxicologista. A apreensão que levou a descoberta aconteceu em São Paulo, em novembro de 2013, apesar das sustâncias já terem sido apreendidas pela polícia em outros estados anteriormente.
Segundo a polícia, em uma abordagem de rotina, a PM parou o carro de um universitário, acompanhado de uma mulher. Os policiais encontraram 500 comprimidos. Pensaram que era ecstasy.
Pressionado o homem levou os policiais até a casa do traficante – um dentista, que estava acompanhado de um terceiro homem. No local, a polícia apreendeu mais comprimidos, além de micropontos que pareciam LSD, maconha e R$ 21 mil em dinheiro.
Diante de um possível crime de tráfico de drogas, os policiais levaram os suspeitos para a delegacia. Os três alegaram que a droga foi colocada na casa para incriminá-los.
A polícia paulistana precisava de uma prova técnica. As drogas foram levadas para análise no instituto de criminalística. O resultado do exame provocou uma reviravolta no caso: aquelas drogas apreendidas não eram LSD nem ecstasy, e os três teriam que ser soltos.
O promotor que investigava essa história não aceitou o primeiro laudo e exigiu que outro mais completo fosse feito. Nessa contraperícia, o resultado se repetiu.
Os traficantes tiveram que ser soltos e ficaram impunes. Só depois, com novos exames, os peritos entenderam o que estavam acontecendo. “A gente conseguiu ver que as substâncias não eram, em primeiro lugar, ecstasy e LSD, e eram sim, outras drogas ainda novas no Brasil”, explica Leonardo Marabezzi, perito.
A droga que os policiais imaginavam ser ecstasy, na verdade, se chama Metilona. E aquela que parecia ser LSD é conhecida como 25I-NBOMe, também chamada de 25I. A Polícia Militar (PM) confirma que não é a primeira vez que a substância foi apreendida em São Paulo.
Segundo a PF, a Metilona já foi encontrada em São Paulo e também no Rio Grande do Norte. A 25I, em São Paulo, Santa Catarina e Mato Grosso.
“As drogas são sintetizadas na Índia e na China. Mas o caminho obrigatório para vir para o Brasil é Europa. Elas vêm pela Europa e chegam aqui”, afirma Renato Pagotto Carnaz, delegado da Polícia Federal. No Brasil, elas são vendidas livremente na internet. Os usuários fazem até avaliações das drogas.
“O público-alvo são jovens de classe média alta que utilizam esse tipo de droga. Ela tem um efeito duradouro. E é uma droga cara, não é uma droga barata”, destaca o delegado.
Nos Estados Unidos as duas drogas mataram pelo menos 19 pessoas. A Metilona foi proibida nos Estados Unidos em abril do ano passado. A 25I, há apenas três meses. Reino Unido e Dinamarca também baniram as duas. Outros países, como Rússia, Israel e Canadá, proibiram pelo menos uma delas.
Aqui no Brasil, no entanto, nenhuma das duas é considerada ilegal. “Se uma pessoa acaba sendo flagrada portando essa substância sem que essa substância esteja incluída no rol das substâncias proscritas, ela não é enquadrada no crime de tráfico de drogas”, diz o delegado da PF. “O Ministério Público, fica de mãos atadas”, alerta o promotor.
A lista de drogas proibidas é de responsabilidade Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A última atualização foi em 2012. A agência diz que, no ano passado, recebeu pedidos de inclusão da Metilona e da 25I na lista de drogas proibidas. Foi uma iniciativa da PF. Segundo a Anvisa, é necessária uma análise profunda antes que uma droga entre na relação de substâncias banidas.
Somente em 2014, mais de 30 drogas desconhecidas foram levadas para análise no Instituto Nacional de Criminalística, no Distrito Federal.
“É aquela velha analogia do cachorro correndo atrás do rabo: mesmo que a Anvisa hoje proíba uma substância, na semana seguinte já tem uma nova pronta pra ser lançada no mercado”, avalia João Carlos Ambrosio, perito federal. Segundo a Anvisa, uma reunião sobre o assunto vai acontecer nesta terça-feira (18). Enquanto nada se decide, a droga se espalha pelo país e a polícia fica de mãos atadas.








