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Crônicas do Fruto: Depois da festa em Gaspar, Moisés voltou a Biguaçu

A história é ficção, mas a foto do governador numa festa junina em Gaspar é real.

O governador continua tendo aconselhamentos no “centro” do Pai Pacácio.

Semana passada não foi. Na terça-feira virou a noite assistindo o depoimento do ex-secretário Douglas Borba na CPI dos respiradores.

Acabou dormindo demais no outro dia e perdeu a hora.

Esta semana foi diferente. Chegou no horário marcado.

Levou duas garrafas de vinho Nilo Reserva, uva teroldego, produzida lá na linha Leãozinho, interior de Tangará, pela família Panceri.

– Foi difícil encontrar esse vinho – disse Moisés, antes de sentar, entregando a sacola para o pai de santo.

– Eu não entendo nada de vinho, mas não tenho culpa. Já lhe disse, sou apenas um cavalo. São os guias que escolhem os presentes.

O pai de santo serviu um cafezinho. Moisés tomou um gole e perguntou:

– Só por curiosidade, quais outros políticos vêm aqui na sua casa? O dr. Luiz aconselha mais alguém?

O negro fechou a cara e falou:

– O senhor conhece a expressão ‘entre colunas’? Aqui funciona assim.

Moisés terminou o cafezinho e ficou em silêncio.

O negro começou a fumar e a tossir. Quando se acalmou, falou com a voz do Luiz Henrique. Falava e ria:

– Problemas hoje, governador. Já foi levar uma carteira de cigarros pro seu amigo Douglas?

– O senhor já foi governador, sabe como é. Problemas têm todos os dias. O senhor ri, mas minha vida ta complicada. Essa prisão do Douglas e do amigo dele então, me deixaram por terra. Sei que não devo nada, mas vai que esses caras inventam uma história para se livrar. Depois que inventaram esse negócio de delação premiada, ninguém está livre.

O governador parecia ainda mais amuado que da última vez. Parece que a prisão do seu ex-homem forte mexeu com sua estrutura.

Luiz Henrique falou novamente, desta vez com voz séria:

– Me diga que merda o senhor foi fazer em Gaspar? Quando o Jesus veio me mostrar a história não acreditei. Achei que era lorota. Ele tem má vontade com o senhor e tem seus motivos. Mas o pior que é verdade. O senhor, no meio pandemia, estava numa festa junina.

Pacácio deu uma baforada no charuto e Luiz Henrique continuou falando:

– Todo mundo em casa por causa do vírus e o senhor dançando quadrilha. O senhor numa quadrilha é piada pronta. O senhor está parecendo aquele doido do Bolsonaro que não respeita o isolamento. Descumpre o seu próprio decreto. Vai fazer a felicidade daquele chargista esquerdista do Diário Catarinense, o Zé não sei das quantas.

-Zé Dassilva – disse Moisés. – Ele só pega no pé do Bolsonaro, ainda bem. Mas foi o senhor que me disse para estar no meio do povo.

-Cara, você é i….

Luiz Henrique percebeu que falava com o governador do Estado e não completou a palavra. Acalmou-se e continuou a conversa:

– Disse para o senhor estar no meio do povo trabalhando e não festando.

– Fui a Gaspar esfriar um pouco a cabeça – disse Moisés. – Não imaginei que fosse uma festa. Foi mal. Mandei fazer uma nota oficial explicando.

– Lembra quando lhe falei da mulher de César, que além de honesta precisa parecer honesta? – indagou Luiz Henrique. – O senhor parece que não prestou atenção ao conselho. Mas vamos mudar de assunto: Resolveu a questão dos respiradores?

Moisés queria falar sobre outras coisas, mas mesmo contrariado teve de responder:

– Continua na mesma situação. Nem todos os respiradores chegaram. A polícia continua investigando, meu ex-amigo está preso e a CPI na Assembleia continua. Não imagino como isso vai terminar.

– Isso só vai terminar quando o senhor tomar uma atitude. Já lhe contei a história do Aldinho. Não tenha dó dos seus amigos. Se devem, faça pagar. Coloque em prática esse ditado “se for para chorar a mãe de alguém, que não seja a minha”.

– Há mais coisas entre o céu e a terra – filosofou Moisés.

– Isso é Hamlet – disse Luiz Henrique.

– Isso é o que?- indagou Moisés.

Luiz Henrique riu. Estava bem humorado. As rodas de conversas com os catarinenses têm lhe feito bem.

Longos jogos de canastra com Geovah Amarante, Saulo Vieira e Walmor de Lucca preenchem o tempo.

Outro dia arriscou até jogar quatrilho. Mas nesse jogo, Wilson Kleinubing é imbatível. Aprendeu a jogar em Iomerê, quando ainda era distrito de Videira. Lá estão os campeões de quatrilho do sul do mundo.

O negro deu uma baforada no charuto e Luiz Henrique voltou a falar:

– O senhor precisa de atitude. Se não tomar uma atitude nesse caso dos respiradores, doa a quem doer, vai ficar sangrando e isso é tudo o que seus adversários querem.

– O Kennedy Nunes não larga do meu pé – disse Moisés.

– Esse não precisa levar a sério. Sempre foi assim. Conheço bem lá de Joinville. Ele acredita até que uma jumenta falou.

Para Moisés, Luiz Henrique estava falando umas coisas muito estranhas, mas continuou prestando atenção no seu conselheiro.

– É bom ter alguém na oposição e é bom para o senhor que seja o Kennedy e esse outro rapaz de Blumenau, o Naatz. Eu tive o Joarez Ponticelli. Foi a melhor coisa que me aconteceu. Ele ocupava todo o espaço e chegou num determinado momento que ninguém mais deu crédito. Para o senhor ver como esse mundo dá voltas, em 2014, pela mão do Merísio, ele tentou até ser candidato a senador numa coligação com o MDB.

– Vou tentar resolver essa questão dos respiradores mais depressa possível – falou Moisés. – Preciso virar essa página.

Preste atenção neste conselho – disse Luiz Henrique, com voz calma – o senhor precisa curtir o cargo de governador, está me entendendo? As crises sempre vão existir. É do jogo. Fale sobre outros assuntos. Eu sei que você está enfrentando uma pandemia, mas e quando isso passar? Comece a pensar no turismo de Santa Catarina. Até hoje não vi o senhor fazer nada por esse setor. Comece a pensar na cultura de nosso Estado, que é riquíssima. Se cerque de gente boa e capacitada. Polícia é muito bom, mas para a sua segurança. Seu Governo parece um quartel. O senhor precisa de pessoas com cabeças ligadas em outras áreas do mundo.

Moisés ouviu atentamente e voltou a falar:

– Vou fazer umas mudanças no Governo. O senhor pode ficar tranquilo. Nesse momento não está fácil, mas vou cuidar desses temas. O senhor pode…

Luiz Henrique interrompeu:

– O senhor também tem que cuidar da economia. Falar com os empresários, animar os empresários neste momento difícil. Não precisa abrir os cofres do Governo, mas se fazer presente. O governador não é mais que um animador do Estado. Cuidar da administração é dever dos secretários.

Moisés estava maravilhado com os conselhos. Como seria legal ter uma equipe competente para fazer tudo isso.

O negro agora fumava o charuto e tomava cachaça constantemente. Após uma baforada que encheu a sala de fumaça, Luiz Henrique falou novamente:

– Quando o senhor foi eleito, era para fazer apenas duas coisas. Escute bem: duas coisas. Escolher uma boa equipe e cobrar serviço dessa equipe. Se o senhor conseguir fazer isso, será um grande governador.

Moisés abriu a boca para falar, mas Luiz Henrique interrompeu e continuou falando:

– O senhor precisa ter cuidado, no Governo, com dois tipos de gente: os que tem poder e querem dinheiro; e os que tem dinheiro e querem poder. Existem muitos por aí. Isso só traz confusão para a sua administração.

– O senhor não imagina como esses conselhos têm sido importantes – disse Moisés. – Cada vinda minha aqui aprendo algo.

– Hoje não posso lhe dar muita atenção. – respondeu Luiz Henrique – Temos uma conversa com o pessoal de Santa Catarina e por certo o senhor e suas trapalhadas serão o assunto preferido. O Sandro Tarzan vai fazer um carreteiro de frescal. Esses joaquinenses acham o frescal a oitava maravilha do mundo.

Moisés já ia se despedir, mas lembrou de falar:

– O senhor me falou de vinhos na outra vez. Quero comprar vinhos catarinenses para a Agronômica, mas não entendo muito. O único vinho catarinense que conhece é o Vô Luiz, de Nova Trento. Meu negócio é cerveja.

Luiz Henrique interrompeu rindo:

-Procura o Celso Panceri e o Maurício Grando, mas não compra só os produzidos por eles. Santa Catarina tem muita coisa boa e eles podem indicar. Só não diga que fala comigo. Se souberem, amanhã estarão aqui.

O governador se mexeu na cadeira para perguntar quem eram Maurício Grando e Celso Panceri, mas o negro começou a manear a cabeça, fungar e tossir.

Luiz Henrique já estava de volta a sua reunião com os catarinenses.

Moisés embarcou no carro para ir embora, mas antes digitou no Google: “Kennedy Nunes a jumenta vai falar”.

“Não é que Luiz Henrique estava certo. Mas com a fé das pessoas a gente não mexe”, pensou Moisés.

#conversasembiguaçu

Por Frutuoso Oliveira

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