Desde a semana passada, o mundo tem assistido atônito a mais uma ofensiva israelense à Faixa de Gaza. Já são pelo menos 180 palestinos mortos e mais de mil feridos. Se tais números não fossem alarmantes o bastante, a perplexidade fica por conta da informação de que 70% destes são civis; um terço dos mortos são crianças. Do lado israelense, um soldado morreu até agora. A escalada teve seu estopim após o governo de Israel, sem provas, acusar o Hamas, grupo que controla a Faixa de Gaza, do sequestro e assassinato de três adolescentes judeus na Cisjordânia. Na sequência dos eventos, um adolescente palestino foi sequestrado, torturado e queimado vivo em Jerusalém, numa suposta resposta de grupos judeus extremistas. Depois disso, não demorou para que os ataques entre os dois lados se iniciasse.
O estudante caçadorense Rodrigo dos Santos voltou recentemente da região, onde trabalhou por três meses como voluntário no Programa de Acompanhamento Ecumênico Palestina-Israel (PAEPI/EAPPI). Conforme explica, o PAEPI existe há 12 anos e é uma das várias ONGs internacionais que monitoram a ocupação israelense na Palestina e advogam por uma paz com justiça para todos.
“Fiquei entre janeiro a abril deste ano. Foi um tempo de relativa ‘tranquilidade’. Digo tranquilidade entre aspas porque, quando não há bombardeio, ficam tranquilos apenas os cidadãos e cidadãs de Israel, que não sofrem a humilhação e violência diárias de uma ocupação ilegal que já dura quase 50 anos”, observa Santos. A ocupação a que ele se refere teve início em 1967, após a Guerra dos Seis Dias, quando Israel expandiu suas fronteiras e impôs presença militar a todo o território palestino, composto pela Cisjordânia e pela Faixa de Gaza. Teoricamente, Israel não ocupa mais a Faixa de Gaza desde 2005, quando retirou de lá seus colonos e tropas. Na prática, no entanto, a região sofre com um cerco que devastou completamente a sua economia, transformando o local numa ilha de miséria com a maior densidade populacional do mundo.

Mulheres palestinas aguardam para serem revistadas por soldados israelenses antes do trabalho
Rodrigo conta que não tinha autorização para entrar em Gaza, mas viajou por todo o território da Cisjordânia, onde ficou estabelecido por três meses. “Eu morei no norte, em uma vila chamada Jayyus. Foi um tempo inesquecível, em que convivi com um povo fascinante, extremamente respeitoso e hospitaleiro, que mesmo sob circunstâncias tão desanimadoras não deixa de acreditar e lutar por sua liberdade”, recorda.
A realidade de uma ocupação militar
Rodrigo relata que as atividades do grupo que compôs visavam, em primeiro lugar, a documentar todas as violações de direitos humanos testemunhadas. “Nós acompanhávamos o povo palestino em seu dia a dia. Às vezes, a presença de estrangeiros, devidamente identificados e com câmeras fotográficas, inibia ações abusivas por parte dos soldados israelenses. Mas a verdade é que, mesmo sem violência física ou verbal, a realidade de uma ocupação é um abuso em si, uma imoralidade”, comenta.
Segundo o que ele mesmo presenciou, palestinos têm acesso restrito aos serviços mais básicos. “Para se ter uma ideia, as populações israelenses que moram ilegalmente na Cisjordânia usam em média seis vezes mais água que as cidades palestinas. As principais fontes, ironicamente, ficam do lado palestino, mas é uma empresa israelense que controla 80% desses recursos e cobra dos palestinos três vezes mais caro do que de Israel para prestar o serviço.”

Mapa Israel-Palestina (créditos: theclinic.cl)
Outro grande transtorno enfrentado pela população da Cisjordânia é a barreira que separa os dois países, construída por Israel sob o pretexto de prevenir ataques suicidas. Segundo Rodrigo, “o problema é que quase a totalidade dessa barreira foi erguida em território palestino, e não na fronteira, mostrando que a verdadeira intenção de Israel foi anexar ainda mais território. Milhares de homens e mulheres, em seu caminho para o trabalho, têm que se submeter a revistas diárias ao atravessar os postos de controle construídos ao longo da barreira. Agricultores palestinos precisam de permissão para ir trabalhar na própria terra, que ficou do outro lado da cerca. O mais triste é que nem um terço desses agricultores consegue a permissão, e assim acabam perdendo definitivamente suas propriedades para o Estado de Israel”.
De acordo com o estudante, a lista de violações é interminável: “Praticamente todas as semanas, jovens, e até mesmo crianças, vão para a cadeia; residências são demolidas; sem nenhuma razão, casas são invadidas de madrugada pelo exército, cujo lema é ‘fazer a sua presença ser sentida’; vilas sofrem com ataques terroristas de judeus de extrema direita. É deprimente”, lamenta. “Todos esses problemas estão na raiz causadora da crise. A ocupação é que deve ser responsabilizada.”
Para entender o conflito: A histórica rivalidade entre Israel e Palestina começou no início do século passado. Judeus, vítimas do nazismo na Europa, foram transferidos para a Palestina, onde já viviam os árabes, porém sem a existência de um estado organizado. A recém-criada ONU fez a divisão do território e, em 1948, foi estabelecido o Estado de Israel. Os árabes não concordaram com a divisão, segundo a qual os imigrantes judeus, na época, menos de um terço da população, ficavam com a maior e melhor parte do território. Deflagrou-se a primeira guerra, com vitória maciça de Israel. De lá para cá, Israel vem tomando sistematicamente o território palestino. (conferir anexo “mapa Israel-Palestina”)








