Search
Close this search box.

Se a IA pode criar interfaces em segundos, o que passa a diferenciar um bom designer?

Roberta Lemos

Roberta Lemos

Compartilhe

Avanço de ferramentas generativas acelera prototipação, pesquisa e experimentação, mas especialistas apontam que compreensão do usuário e tomada de decisão continuam no centro do design A inteligência artificial está mudando a forma como produtos digitais são concebidos, testados e aprimorados. A tecnologia tornou mais rápida uma parte do trabalho de criar produtos digitais.

Mas, à medida que protótipos, interfaces e alternativas podem ser produzidos em segundos, surge uma questão mais difícil: quem decide o que realmente vale a pena construir? Para designers de produto, a transformação não significa substituição do trabalho, mas a possibilidade de otimizar tempo e concentrar esforços em decisões que exigem compreensão de problemas, contexto, comportamento e necessidades dos usuários. Ferramentas baseadas em IA já podem auxiliar na criação de protótipos, organização de informações, geração de conteúdo, exploração de alternativas e automação de tarefas repetitivas. Nesse cenário, o avanço tecnológico tende a deslocar parte do trabalho operacional para uma atuação mais estratégica.

IA acelera a experimentação A mudança já pode ser observada nas próprias ferramentas utilizadas pelas equipes de produto. Em 2025, a Figma ampliou sua plataforma com recursos de inteligência artificial capazes de gerar protótipos a partir de prompts, criar e editar imagens, produzir conteúdos para interfaces, traduzir textos e auxiliar na organização e síntese de informações. A empresa também disponibilizou o Figma Make, voltado à criação e exploração de protótipos e aplicações por meio de comandos em linguagem natural. Esse movimento altera principalmente a velocidade de experimentação.

Em vez de o designer precisar produzir manualmente cada alternativa antes de testar uma hipótese, a IA pode ajudar a criar diferentes possibilidades em menos tempo. A consequência é que o profissional pode dedicar mais energia à comparação das alternativas, à identificação de problemas e à tomada de decisões. “A inteligência artificial pode reduzir o tempo gasto em tarefas operacionais e permitir que o designer explore mais possibilidades.

Mas gerar alternativas rapidamente não significa, por si só, encontrar a melhor solução. O valor do profissional está também em saber quais perguntas fazer, quais hipóteses testar e por que determinada solução faz sentido para aquele usuário”, afirma Adriele Yamaguchi, mestranda em Technology Management, com ênfase em Digital Marketing, nos Estados Unidos.O desafio de desenhar produtos com IA A própria evolução das ferramentas indica que a IA está entrando em diferentes etapas do desenvolvimento de produtos. Uma pesquisa divulgada pela Figma em 2025, realizada com 2.500 profissionais de produto em sete países, investigou como designers e desenvolvedores estavam incorporando inteligência artificial ao trabalho. O levantamento também apontou o crescimento dos chamados produtos de IA agêntica, sistemas capazes de executar sequências de ações a partir das instruções do usuário.

Para o design de produto, a expansão desses sistemas cria um desafio adicional: descobrir como as pessoas devem interagir com tecnologias que não funcionam necessariamente como os softwares tradicionais. Em produtos baseados em agentes, por exemplo, o designer precisa considerar quando o sistema deve pedir confirmação, quanto deve explicar sobre uma ação, como apresentar resultados e em quais situações o usuário precisa manter o controle. “Quando o produto incorpora IA, não basta desenhar uma interface bonita. É preciso projetar a interação entre a pessoa e um sistema que pode gerar respostas, tomar determinadas ações ou apresentar resultados probabilísticos. Isso exige pensar em confiança, transparência, controle e feedback”, avalia Adriele. Pesquisa continua dependendo de interpretação humana A inteligência artificial também pode apoiar etapas anteriores à construção da interface. Em pesquisa e discovery, por exemplo, pode auxiliar na organização de informações, síntese de dados qualitativos, identificação de padrões e geração de hipóteses. Mas isso não elimina a necessidade de interpretação humana.

Estudos recentes sobre IA aplicada à pesquisa qualitativa em UX alertam justamente para o risco de reduzir respostas complexas de usuários a categorias excessivamente simplificadas. A questão passa a ser como utilizar a tecnologia para ampliar a capacidade analítica sem retirar do designer a responsabilidade pela interpretação e pelas decisões. Experiência do usuário continua no centro Essa discussão é especialmente relevante para profissionais que trabalham com produtos complexos e grandes volumes de usuários. Ao longo da carreira, Adriele atuou em projetos de produtos digitais, marketplaces, serviços financeiros e plataformas SaaS, trabalhando com pesquisa, prototipação, testes de usabilidade, Product Discovery e colaboração entre diferentes áreas. Na Vendoo, por exemplo, participou de uma solução baseada em inteligência artificial que reduziu o tempo médio de criação de anúncios de aproximadamente 12 minutos para cerca de dois minutos.

A experiência ajuda a ilustrar uma diferença importante entre utilizar IA como ferramenta e simplesmente automatizar o processo de criação. “O melhor resultado acontece quando a tecnologia é aplicada para resolver um problema real. No caso de produtos digitais, precisamos medir se a solução realmente melhorou a experiência, reduziu esforço ou trouxe algum outro valor para o usuário. A velocidade de desenvolvimento é importante, mas não pode ser o único indicador de sucesso”, destaca Adriele. O diferencial passa da execução para a estratégia A IA também está mudando as competências valorizadas no design.

À medida que ferramentas generativas tornam tarefas técnicas mais rápidas e acessíveis, a diferenciação profissional tende a migrar da execução para a capacidade de formular problemas, interpretar dados e tomar decisões estratégicas. Nesse cenário, ganha ainda mais importância aquilo que exige compreensão genuína das pessoas: suas emoções, desejos, necessidades e comportamentos. A trajetória de Adriele reflete essa combinação entre design, tecnologia e estratégia, com graduação em Design pela UFSC, formação em Customer Experience pela ESPM e mestrado em Technology Management em andamento, nos Estados Unidos. IA transforma, mas não elimina a profissão A discussão sobre substituição profissional, portanto, precisa ser tratada com cautela.

O cenário observado no mercado aponta mais para uma transformação das atividades do que para uma evidência de que a profissão esteja simplesmente desaparecendo. Em setembro de 2026, entidades do setor de design ouvidas pelo The Guardian defenderam que a IA tende a complementar o trabalho de profissionais qualificados, destacando competências como experiência, empatia e conhecimento especializado. O próprio setor de design britânico, segundo dados apresentados pelo Design Council, registrou crescimento entre 2019 e 2023, embora esses números não permitam atribuir causalidade à IA. Para Adriele, a principal mudança está na necessidade de o designer assumir uma postura ainda mais estratégica. “A IA não diminui a importância do design de produto; ela muda o tipo de valor que o designer precisa entregar. Se uma ferramenta consegue produzir uma interface em segundos, o diferencial deixa de ser apenas a capacidade de desenhar aquela interface. Passa a ser a capacidade de entender o problema, fazer escolhas, validar com pessoas e construir uma experiência que realmente funcione”, conclui.

Leia mais…

https://noticiahoje.net/

Receba notícias, diariamente.

Salve nosso número e mande um OK.

Ao entrar você está ciente e de acordo com todos os termos de uso e privacidade do WhatsApp