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Queda em casa após os 60 acende alerta para fratura de quadril

Gabriel Malheiro

Gabriel Malheiro

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Considerada emergência ortopédica, a fratura do fêmur proximal em idosos tem alta taxa de mortalidade no primeiro ano e começa, na maioria das vezes, com um simples tropeço dentro de casa

Era uma manhã fria de junho quando uma moradora de Caçador, aos 78 anos, escorregou ao sair do banheiro e caiu sentada no piso. A queda pareceu pequena. Não houve sangue, não houve corte, apenas uma dor na virilha que se recusava a passar e uma perna que não sustentava mais o peso do corpo.

Horas depois, no pronto-socorro, o raio-X confirmou o que a família temia sem saber nomear: fratura no colo do fêmur. Dali em diante, a rotina de filhos, netos e cuidadores passou a girar em torno de cirurgia, internação e reabilitação.

A cena se repete com frequência maior do que a maioria das pessoas imagina. No interior catarinense, onde o inverno rigoroso mantém os idosos mais tempo dentro de casa e o chão úmido se torna uma armadilha silenciosa, a queda da própria altura é a principal causa desse tipo de fratura.

Não é preciso um acidente grave. Basta um tapete solto, um degrau mal iluminado ou um momento de tontura ao levantar da cama.

O que assusta os ortopedistas não é apenas a frequência, mas o que vem depois. A fratura do fêmur em pessoas idosas deixou de ser apenas um problema de osso quebrado para se tornar um marcador de risco para a saúde como um todo.

A queda que parece banal

A articulação do quadril liga a cabeça do fêmur à bacia e sustenta praticamente todo o peso do corpo ao caminhar, sentar e levantar.

Quando um osso já enfraquecido pela osteoporose recebe o impacto de uma queda, mesmo de baixa energia, a fratura acontece com facilidade. As regiões mais atingidas são o trocânter, na parte superior do fêmur, e o colo femoral, logo abaixo da cabeça do osso.

A osteoporose explica boa parte desses casos. A doença reduz a densidade óssea de forma silenciosa, sem dor e sem sintomas evidentes, até que um osso ceda.

Por isso muitos idosos descobrem que têm a condição apenas no momento da fratura. As mulheres, especialmente após a menopausa, formam o grupo mais afetado, tanto em número de casos quanto em mortalidade.

Há ainda um fator pouco discutido nas conversas em família. Medicamentos de uso comum entre os idosos, como remédios para pressão, ansiolíticos e antidepressivos, aumentam o risco de queda por causarem tontura, sonolência ou queda de pressão ao levantar.

Um estudo publicado na Revista Brasileira de Ortopedia identificou que a maioria dos pacientes idosos com fratura de fêmur usava ao menos um desses medicamentos.

O peso dos números no Brasil

A dimensão do problema aparece com clareza nos registros do sistema público. Levantamento publicado na Revista de Epidemiologia e Saúde Pública, com base em dados do DATASUS, mostrou que 568.367 idosos sofreram fratura de fêmur e foram atendidos pelo SUS no Brasil entre 2013 e 2022.

As internações cresceram de cerca de 41,8 mil em 2013 para mais de 76 mil em 2022, em ritmo acompanhado pelo envelhecimento da população brasileira.

A gravidade não está apenas no volume. Estudos de acompanhamento mostram que a mortalidade após a fratura do fêmur proximal é alta e aumenta com o passar dos meses.

Uma revisão publicada na Acta Ortopédica Brasileira reuniu mais de 24 mil pacientes acima de 60 anos e encontrou taxas médias de mortalidade de 11,9% em três meses, 19,2% em um ano e 24,9% em dois anos. Em outras palavras, uma parcela considerável dos idosos que fraturam o quadril não sobrevive aos dois anos seguintes.

A projeção internacional reforça o alerta. Estimativas reunidas em estudos epidemiológicos apontam que, até 2050, o mundo poderá registrar cerca de 4,5 milhões de fraturas de quadril por ano em idosos, à medida que a expectativa de vida aumenta na maioria dos países. O Brasil, que envelhece em ritmo acelerado, acompanha essa curva.

Por que o frio e a casa importam tanto

Caçador carrega a fama de ser uma das cidades mais frias do Brasil, com termômetros que despencam nas madrugadas de inverno. Esse detalhe climático tem relação direta com o risco de queda entre os mais velhos.

No frio, a circulação fica mais lenta, as articulações enrijecem e os reflexos demoram um pouco mais a responder. Idosos passam mais tempo em ambientes fechados, muitas vezes em casas com pisos frios e escorregadios.

A própria casa, que deveria ser o lugar mais seguro, concentra a maioria dos acidentes. Banheiros sem barra de apoio, tapetes que deslizam, fios espalhados pelo chão, escadas sem corrimão e iluminação fraca formam um conjunto de riscos que passa despercebido no dia a dia. Para quem já tem ossos fragilizados, qualquer um desses elementos pode transformar um passo em uma internação.

A prevenção dentro de casa costuma ser mais barata e mais eficiente do que qualquer tratamento posterior. Instalar barras de apoio no banheiro, fixar tapetes, melhorar a iluminação dos corredores e manter os caminhos livres de obstáculos reduz de forma concreta a chance de queda.

O acompanhamento da osteoporose com exames de densitometria e a prática de atividade física orientada completam o conjunto de medidas que protegem o idoso.

O tempo até a cirurgia conta

Quando a fratura acontece, a maioria dos casos exige cirurgia. O tratamento conservador, sem operação, fica reservado a fraturas incompletas ou sem desvio, situações menos comuns.

Na prática, a operação busca recolocar o osso na posição correta e fixá-lo com placas, parafusos ou, em parte dos casos, com a substituição da articulação por uma prótese.

O intervalo entre a queda e a cirurgia é um dos pontos mais sensíveis de todo o processo. Como observa um especialista em quadril da Unimed, quanto mais cedo o idoso é operado e colocado de pé, menores são os riscos de complicações como pneumonia, infecção urinária, trombose e perda de massa muscular. Cada dia parado na cama cobra um preço alto do corpo de uma pessoa de idade avançada.

Por isso a fratura de fêmur é tratada como emergência ortopédica, e não como um procedimento que pode esperar semanas na fila. O tempo médio entre a fratura e a cirurgia, descrito em estudos brasileiros, gira em torno de quatro dias, mas a recomendação dos especialistas é operar o quanto antes a condição clínica do paciente permitir.

A decisão sobre o tipo de cirurgia depende do tipo de fratura, da idade do paciente, do nível de atividade que ele tinha antes da queda e das doenças associadas.

Um idoso ativo e independente costuma se beneficiar de técnicas que devolvem mobilidade rápida, enquanto pacientes mais frágeis exigem planejamento cirúrgico cuidadoso e suporte clínico durante toda a internação.

A preparação para a cirurgia também pesa no resultado. Avaliar o coração, controlar a pressão e a glicemia, ajustar medicamentos e corrigir uma eventual anemia antes da operação reduz o risco de complicações no centro cirúrgico e nos dias seguintes.

“Em pacientes com várias doenças associadas, esse cuidado clínico vale tanto quanto a técnica usada na mesa de operação”, afirma Dr. Tiago Bernardes, médico ortopedista especialista em quadril em Goiânia.

A recuperação começa cedo

Operar bem é apenas metade do caminho. A reabilitação determina se o idoso vai voltar a andar com autonomia ou se vai depender de outras pessoas para as tarefas mais simples.

Conforme informações de ortopedistas credenciados à Unimed, a mobilização precoce, ainda nos primeiros dias após a cirurgia, é um dos fatores que mais influenciam o resultado funcional a longo prazo.

O processo envolve fisioterapia, controle da dor, atenção à nutrição e acompanhamento de doenças que já existiam antes da fratura. A perda de independência funcional preocupa tanto quanto a mortalidade. Muitos idosos que andavam sozinhos antes da queda não recuperam totalmente a autonomia que tinham, mesmo após uma cirurgia bem-sucedida.

Existe também um componente emocional que costuma ser subestimado. Boa parte dos idosos que sofrem uma queda desenvolve medo de cair novamente, restringe os próprios movimentos e perde condicionamento físico, o que paradoxalmente aumenta o risco de uma nova queda.

Segundo médicos especialistas do COE, clínica referência em ortopedia em Goiânia, o apoio da família e o acompanhamento profissional ajudam a romper esse ciclo.

O que as famílias de Caçador podem fazer

A fratura de quadril no idoso é, ao mesmo tempo, grave e previsível. Grave porque mexe com a sobrevivência e com a independência de quem já viveu muito.

Previsível porque a maioria das quedas que a provocam acontece dentro de casa, em situações que poderiam ser corrigidas com pequenas mudanças no ambiente e com a atenção certa à saúde dos ossos.

Para as famílias do interior catarinense, o recado dos ortopedistas é direto. Vale olhar a casa dos pais e avós com olhos de quem procura riscos, manter os exames de osteoporose em dia, conversar com o médico sobre os remédios que podem causar tontura e não tratar a primeira queda como um episódio sem importância.

Quando a fratura já aconteceu, a rapidez no atendimento e o início precoce da reabilitação fazem diferença entre voltar a caminhar e perder a autonomia de vez.

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