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Azia frequente pode indicar refluxo e não deve ser tratada como algo normal

Gabriel Malheiro

Gabriel Malheiro

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Queimação no peito que se repete várias vezes por semana costuma ser confundida com um incômodo passageiro, mas pode ser o primeiro sinal de uma doença que, sem tratamento, evolui para complicações sérias.

Há quem mantenha uma cartela de antiácido na gaveta da cozinha e outra na bolsa, e recorra a ela depois de quase toda refeição mais pesada.

A azia que sobe pelo peito virou parte da rotina de muita gente, tratada como um preço a pagar por um almoço apressado, por uma janta tardia depois do turno ou por um fim de semana de churrasco.

No interior catarinense, onde a jornada na indústria e no campo costuma empurrar as refeições para horários irregulares, esse hábito é ainda mais comum.

O problema é que a queimação repetida raramente é só um incômodo. Quando aparece várias vezes por semana, costuma ser a manifestação mais frequente da doença do refluxo gastroesofágico, conhecida pela sigla DRGE.

Tratar o sintoma com remédio de balcão, sem investigar a causa, é justamente o que transforma um quadro controlável em um problema de anos.

A doença atinge entre 10% e 20% da população adulta nos países ocidentais, segundo revisões publicadas na literatura médica brasileira. Um levantamento populacional feito em 22 metrópoles do país, com quase 14 mil entrevistados, mostrou que 7,3% das pessoas relatavam azia duas ou mais vezes por semana.

Números que, na prática de consultório, se traduzem em pacientes que conviveram tempo demais com o sintoma antes de procurar ajuda.

Quando a azia deixa de ser um incômodo passageiro

A azia, ou pirose, é a sensação de queimação que parte da boca do estômago e sobe em direção ao peito e à garganta. Ela acontece quando o conteúdo ácido do estômago volta para o esôfago, um movimento que o corpo deveria barrar.

O responsável por esse bloqueio é o esfíncter esofágico inferior, uma espécie de válvula entre o esôfago e o estômago. Quando essa válvula relaxa na hora errada ou perde a firmeza, o ácido sobe.

Um episódio isolado depois de uma refeição exagerada não preocupa. O que define a doença é a frequência. O Consenso Brasileiro sobre o tema considera relevante a queimação que se repete pelo menos duas vezes por semana durante várias semanas. A partir daí, deixa de ser um desconforto eventual e passa a ser um quadro que merece avaliação.

Junto da queimação, costuma aparecer a regurgitação, a sensação de que o alimento ou um líquido azedo voltam à boca sem esforço de vômito. Quando os dois sintomas se repetem e atrapalham o sono ou as refeições, o sinal de alerta fica mais evidente.

O antiácido que alivia e esconde

O alívio rápido do antiácido tem um efeito colateral pouco lembrado: ele apaga o sinal sem apagar a causa. Quem toma o remédio por conta própria durante meses pode estar mascarando uma esofagite, uma úlcera ou alterações na parede do esôfago, que continuam evoluindo em silêncio. O uso contínuo desses medicamentos sem acompanhamento também traz riscos próprios, como deficiências nutricionais.

O raciocínio mais comum, de que a azia veio só do que se comeu, atrasa o diagnóstico. Enquanto o paciente ajusta a comida e troca de marca de antiácido, a doença segue o seu curso.

Um estudo brasileiro chegou a observar que pessoas com piores índices de bem-estar tinham mais que o dobro de sintomas de refluxo em comparação com as de melhor qualidade de vida, sinal de que o problema atrapalha o dia a dia de quem o carrega, mesmo quando passa despercebido como doença.

Alguns fatores aumentam a chance de desenvolver o refluxo. O excesso de peso pressiona o estômago e favorece o retorno do ácido.

O sedentarismo, a alimentação rica em frituras e gorduras, o cigarro e o hábito de deitar logo após comer entram na mesma conta. Por isso o quadro costuma se instalar de forma gradual, acompanhando mudanças de rotina e de peso ao longo dos anos.

Quando procurar um especialista

A recomendação médica é direta: azia frequente, que persiste apesar das mudanças de hábito, pede avaliação. Sinais de alerta como dificuldade para engolir, dor ao engolir, emagrecimento sem explicação, vômito com sangue ou anemia tornam a investigação urgente.

Nesses casos, o exame mais usado é a endoscopia digestiva alta, que permite ver diretamente a mucosa do esôfago e identificar inflamações, estreitamentos ou lesões.

A avaliação costuma ser conduzida por um gastroenterologista ou por um cirurgião do aparelho digestivo, que define se o caso se resolve com medicação e ajustes de rotina ou se exige acompanhamento mais próximo.

Dr. Thiago gastroenterologista, por exemplo, atua em Goiânia com cirurgias do aparelho digestivo e com o tratamento do refluxo, incluindo a fundoplicatura, técnica indicada quando o controle por remédios deixa de ser suficiente.

A decisão entre seguir só com medicamento ou partir para a cirurgia depende da gravidade do refluxo, da resposta ao tratamento clínico e da presença de complicações. Não existe resposta única, e é essa leitura individual que justifica a consulta em vez da automedicação prolongada.

Os sintomas que não parecem refluxo

Nem sempre o refluxo se anuncia pela queimação clássica. Em parte dos pacientes, ele aparece disfarçado de outros problemas.

Tosse seca que não passa, rouquidão pela manhã, pigarro constante e a sensação de nó na garganta podem ter origem no ácido que sobe durante a noite. Muita gente trata essas queixas por anos, com xaropes e antialérgicos, sem que a causa real seja identificada.

O ácido que chega à garganta e às vias respiratórias também piora crises de asma e desgasta o esmalte dos dentes. São pistas que, isoladas, dificilmente apontam para o estômago, mas que ganham outro significado quando somadas à azia frequente.

Quanto mais tempo o ácido age sem controle, maior a chance de a inflamação se instalar sem dar sinais claros. É por isso que pacientes tratados durante anos apenas para os sintomas isolados acabam descobrindo a origem tarde, quando o esôfago já apresenta alterações.

Entre as manifestações atípicas, uma chama atenção pela semelhança com uma emergência grave: a dor no peito. A queimação retroesternal causada pelo refluxo pode imitar a dor de um problema no coração, inclusive na localização e na forma como se espalha.

Tanto que o refluxo pode se confundir com problemas cardíacos, levando pessoas ao pronto-socorro convencidas de que estão tendo um infarto.

A orientação dos especialistas é clara nesse ponto: toda dor no peito deve ser investigada primeiro do lado do coração. Só depois de descartada a origem cardíaca é que o refluxo entra como explicação possível. Atribuir a dor à azia sem essa checagem é um risco que nenhum paciente deveria correr sozinho.

O que acontece quando o refluxo não é tratado

Deixado sem controle por anos, o refluxo cobra um preço. O contato repetido do ácido com o esôfago provoca inflamação, a esofagite, que em casos mais avançados forma úlceras e pode sangrar.

A cicatrização dessas lesões estreita o canal do esôfago, uma condição chamada estenose, que dificulta a passagem do alimento e causa a sensação de comida presa no peito.

A complicação mais temida aparece depois de muito tempo de exposição ao ácido. As células que revestem o esôfago podem se transformar, dando origem ao esôfago de Barrett, considerado uma lesão pré-cancerígena.

Essa alteração aumenta o risco de adenocarcinoma de esôfago, um tipo de câncer agressivo. Pacientes com refluxo de longa data costumam precisar de endoscopias periódicas para acompanhar essa possibilidade.

Nem todo refluxo evolui para esse cenário, e a maior parte dos casos é controlada com tratamento adequado. O risco se concentra em quem convive com o ácido por muitos anos sem acompanhamento, justamente o grupo que mais adia a procura por ajuda. É essa demora, e não o sintoma em si, que costuma definir o desfecho.

O recado que o corpo dá

O ponto central não é transformar toda azia em motivo de alarme, mas parar de tratá-la como algo banal quando ela se repete. A diferença entre um refluxo controlado e uma complicação séria costuma estar no tempo que o paciente leva para procurar avaliação.

Quem convive com queimação no peito várias vezes por semana, depende de antiácido para passar o dia ou já percebeu que o sintoma mudou de intensidade tem motivo para conversar com um médico. A azia frequente é um recado do corpo, e ignorá-lo por anos raramente sai barato.

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