Uma carta aberta de entidades científicas e de setores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) criticam o chamado tratamento precoce contra covid-19 e a tentativa de uma adoção de um protocolo em municípios e no estado.
O tratamento, que inclui medicações como cloroquina e ivermectina para casos iniciais de covid-19, está sendo indicado em municípios como Itajaí e Balneário Camboriú e foi defendido em uma carta de médicos enviada ao governador Carlos Moisés, defendendo um protocolo estadual com esses medicamentos.
O tratamento precoce é controverso porque órgãos de saúde como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não reconhecem o coquetel para o tratamento da covid-19, e entidades médicas também já se manifestaram contrárias ao uso dos medicamentos.
A carta desta terça-feira, dia 7, é assinada pelo departamento de Saúde Pública da UFSC, 15 núcleos de estudos e programas de pós-graduação da instituição e mais cinco entidades científicas.
Na carta, os pesquisadores criticam a adoção desses protocolos de tratamento precoce e afirmam que o apoio a esses protocolos aumentam “à medida que a capacidade das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) de Santa Catarina chega ao limite para tratamento da covid-19”.
”Tais iniciativas estimulam a aplicação de recursos de forma equivocada, geram falsas expectativas, falsa sensação de segurança na população, impactam negativamente na adesão às medidas reconhecidamente eficazes de proteção e prevenção do SARS-CoV-2, e, ainda, podem causar efeitos colaterais significativos”, diz um trecho da nota.
A carta afirma que medicamentos como cloroquina, hidroxicloroquina e azitromicina não têm ações comprovadas contra covid-19 e que a carta dos médicos que defende o protocolo não apontaria “sequer um estudo de qualidade que embase tais proposições”.
No caso da ivermectina, a carta conta com o informe da Sociedade Brasileira de Infectologia, de que eles “parecem ter atividade in vitro [em laboratório] contra a SARS-CoV-2, porém ainda não há comprovação de eficácia in vivo, isto é, em seres humanos”.
“O conteúdo da carta e as ações das prefeituras citadas vão na contramão dos órgãos reguladores de medicamentos do Brasil e do mundo, os quais pautam-se em critérios científicos para garantir a segurança dos pacientes e o bem-estar da população”, aponta outro trecho da carta.
As entidades afirmam ainda que a autonomia médica segue preservada, já que não é vedado ao profissional prescrever vitamina C, D ou nenhum dos medicamentos citados, mas diz que “o que não se pode é assumir que estes são tratamentos precoces eficazes contra a covid-19”.
“Portanto, é imprudente o apoio a protocolos para que toda população tenha acesso facilitado a tratamentos os quais não tiveram eficácia comprovada especificamente contra a Covid-19. Neste caso, a autonomia que está em risco é a dos pacientes, que tomariam decisões sobre seu tratamento baseadas em opiniões e não em fatos comprovados cientificamente”, apontam as entidades no texto.
Entidades definem protocolo como imprudente, antiético e irresponsável
Por fim, as entidades afirmam que o protocolo de tratamento precoce seria imprudente, antiético e irresponsável. Além disso, apontam que eles não prezariam pelo bom uso do recurso público, porque “drenam investimentos que deveriam ser aplicados na ampliação das ações que comprovadamente auxiliam no controle da epidemia”, segundo o texto.
Assinam a carta o departamento de Saúde Pública da UFSC, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva, as regionais de Santa Catarina da Sociedade Brasileira de Biótica, Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e a Sociedade Brasileira de Virologia, além de 15 programas de pós-graduação e núcleo de estudos da área de saúde da UFSC.
Com informações Diário Catarinense