A história da atual Feira do Produtor Rural de Caçador começou antes mesmo de sua criação oficial. Muito antes de existir um espaço organizado para reunir os agricultores, famílias do interior já percorriam o caminho até a cidade para comercializar diretamente aquilo que produziam.
Nas décadas de 1950 e 1960, agricultores, muitos deles descendentes de famílias italianas e alemãs, saíam das propriedades e chegavam ao centro de Caçador em carroças carregadas de alimentos. Era uma relação construída pela necessidade, pela confiança e pela proximidade entre quem produzia e quem precisava comprar.
Naquele período, não existiam supermercados como conhecemos hoje. O comércio era formado principalmente por armazéns, enquanto boa parte dos alimentos frescos chegava às famílias pelas mãos dos próprios agricultores.
A realidade também era muito diferente dentro das casas. Geladeira ainda era um artigo de luxo para muitas famílias e a banha de porco tinha papel fundamental na alimentação e na conservação dos alimentos. Chegavam a ser comercializados tonéis com aproximadamente 200 quilos de banha, utilizada diariamente no lugar do óleo. A carne podia ser comercializada viva ou já abatida.
Os produtores percorriam a cidade vendendo diretamente de casa em casa. Com o tempo, os moradores passaram a fazer encomendas antecipadamente, informando aos agricultores aquilo de que precisariam durante a semana.
Entre os produtos procurados estavam banha, frango, carne de porco, saladas, verduras e outros alimentos produzidos nas propriedades rurais. Os agricultores recebiam os pedidos e, quando retornavam à cidade, levavam as encomendas diretamente às famílias.
Parte dessa memória é preservada por Dima Tesser Aime, de 97 anos, e sua filha Helena Ermide Aime, de 79 anos, que ajudam a reconstruir uma época em que os agricultores precisavam encontrar suas próprias maneiras de comercializar aquilo que produziam.
Antes mesmo de receber um nome, portanto, já existia o princípio que mais tarde daria origem à feira: o produtor rural levando aquilo que produzia diretamente ao consumidor.
Entre os primeiros nomes lembrados nessa trajetória estão Paulo Baseggio e Joaquim Scolaro, da Linha São Francisco, que participavam daqueles primeiros movimentos de comercialização.
Foi a partir dessa realidade que começou a surgir a necessidade de reunir os agricultores em um único lugar.
A ideia de criar uma feira
Outra memória fundamental para reconstruir essa história é a de Celso Antônio Tomasi, morador da entrada da Linha São Francisco e agricultor desde sempre. Celso acompanhou o trabalho do pai ainda muito jovem e guarda recordações de quando os produtores rurais começaram a se organizar para comercializar seus produtos diretamente na cidade.
Naquele período, muitas famílias trabalhavam utilizando técnicas tradicionais, transmitidas entre as gerações. Com a implantação do serviço de extensão rural em Santa Catarina, profissionais começaram a visitar as comunidades, realizar reuniões e orientar os agricultores sobre novas formas de produção, organização e desenvolvimento das propriedades.
Para a região de Caçador vieram um agrônomo e uma extensionista. Entre esses profissionais estava Antônio Rodrigues, extensionista da ACARESC e apontado nas lembranças dos antigos agricultores como uma figura fundamental para o surgimento da feira.
Paulista, Antônio Rodrigues conhecia uma realidade que já fazia parte do cotidiano de muitas cidades de São Paulo: as feiras livres.
Ao observar os agricultores de Caçador chegando à cidade com suas carroças e percorrendo as residências para comercializar os produtos, percebeu que aquele trabalho poderia ser organizado de outra maneira. Em vez de cada família produtora precisar passar de casa em casa, todos poderiam se reunir em um ponto determinado, onde a própria população iria encontrá-los.
Durante as reuniões realizadas com os agricultores, surgiu a proposta: por que não criar uma feira livre em Caçador?
A ideia ganhou força e chegou à administração municipal.
1962: a oficialização da feira
Embora a comercialização direta entre agricultores e moradores já acontecesse havia anos, foi em 1962 que a Feira Livre do Produtor Rural passou a contar formalmente com o apoio do poder público.
A feira foi oficialmente implantada com a participação de Antônio Rodrigues e do então prefeito José Kurtz.
Nos primeiros tempos, a estrutura era extremamente simples. Os alimentos eram colocados no chão, próximos às calçadas, enquanto os produtores permaneciam junto às mercadorias esperando pelos compradores.
As memórias sobre os primeiros pontos ocupados pela feira incluem a Avenida Barão do Rio Branco, nas proximidades dos bancos e do Clube 7 de Setembro, além da região próxima à Prefeitura.
Um dos relatos preservados por antigos feirantes resume como era aquela realidade: “Venho na Feira desde meus 8 anos, quando vinha com meu pai, há cerca de 47 anos. Naquela época todos ainda traziam suas mercadorias de carroça até o centro”.
Nas primeiras semanas, aproximadamente 10 a 15 produtores participavam.
Os agricultores deixavam as propriedades ainda de madrugada. Alguns chegavam de carroça, enquanto outros utilizavam pequenos caminhões e os meios de transporte disponíveis naquele período para carregar suas mercadorias.
Apesar da estrutura improvisada, a iniciativa começou a dar resultado.
As pessoas passaram a procurar aquele ponto para comprar diretamente dos agricultores. O que começou com um pequeno grupo foi ganhando participantes e consumidores. Semana após semana, novos produtores passaram a integrar a Feira Livre do Produtor Rural.
Em determinado período, o grupo chegou a aproximadamente 60 feirantes.
A rotina dos primeiros feirantes
Participar da feira exigia esforço de toda a família. As lembranças de Dima Tesser Aime e Helena Ermide Aime ajudam a revelar como era a rotina daqueles agricultores.
Helena recorda o período em que acompanhava a mãe e o pai. Não havia bancas ou uma estrutura adequada para expor os alimentos. Os produtos eram transportados em cestas e caixas e, quando a família chegava à cidade, tudo era organizado junto à calçada.
Levava-se um pouco de tudo, conforme aquilo que a propriedade tivesse disponível para comercializar.
A feira acontecia inicialmente uma vez por semana, nas sextas-feiras pela manhã. Mais tarde, segundo as lembranças da família, também passou a funcionar durante a tarde.
Para conseguir participar, o dia começava quando ainda estava escuro.
Dima e sua família saíam de casa por volta das quatro ou cinco horas da manhã. O deslocamento era demorado e a chegada à cidade podia ocorrer somente por volta das oito horas.
Antes disso, porém, existia uma semana inteira de trabalho: plantar, cuidar, criar os animais, colher, separar, preparar e organizar tudo aquilo que seria levado para a cidade.
Cada dia de feira era o resultado desse esforço.
Uma feira que mudou junto com Caçador
O surgimento e a consolidação da feira aconteceram em um período de importantes transformações no município.
Em 1960, foi inaugurada a nova Igreja Matriz no centro da cidade. No mesmo ano, também foi inaugurado o Aeroporto Municipal Carlos Alberto da Costa Neves.
As transformações também alcançavam o setor produtivo. Em 1964, Osvaldo Olsen fabricou o primeiro trator genuinamente brasileiro, contribuindo para o desenvolvimento da área de máquinas. A mecanização começava a modificar a realidade do campo justamente no período em que os agricultores buscavam novas maneiras de produzir e comercializar.
A Feira Livre do Produtor Rural crescia acompanhando uma cidade que também se transformava.
Durante a administração do prefeito Jucy Varella, os produtores foram transferidos para uma área onde atualmente está localizada a Prefeitura de Caçador. Na época, havia naquele terreno uma espécie de quadra de chão batido.
O espaço foi preparado para receber os agricultores. Foram construídas barracas e havia energia elétrica, uma grande evolução em relação aos primeiros tempos.
Cada produtor passou a possuir seu cartão de feirante e um número correspondente à sua barraca.
Os produtores permaneceram naquele espaço por aproximadamente dois anos, conforme as lembranças de Celso. Entretanto, o desenvolvimento da própria cidade provocaria outra mudança.
Em 6 de setembro de 1968, o prefeito Jucy Varella inaugurou o prédio próprio da Prefeitura de Caçador. A área que havia recebido os produtores passava a integrar uma nova etapa do desenvolvimento urbano, enquanto a feira precisava novamente encontrar outro endereço.
Os feirantes foram transferidos para a região onde atualmente estão a Maria Fumaça e o museu, área próxima de onde posteriormente seria instalada a Rodoviária.
O espaço apresentava dificuldades. Celso recorda que parte do terreno era bastante úmida e que, em períodos de chuva, alguns pontos ficavam alagados.
Mesmo assim, os agricultores continuaram trabalhando.
Durante a administração do prefeito Ardelino Grando, com os projetos para aquela região, os feirantes precisaram ser transferidos mais uma vez.
Desta vez, atravessaram para o outro lado do rio, chegando à região da Avenida Beira Rio/Avenida Aristiliano Ramos, onde a feira permanece até hoje, no Parque Central.
Uma nova estrutura foi preparada. Foram construídas aproximadamente 60 barracas, permitindo que os produtores trabalhassem de maneira mais organizada.
A própria organização interna também se fortaleceu. Os feirantes passaram a contar com diretoria e comissão responsáveis pelo funcionamento do espaço, incluindo questões relacionadas aos preços e à organização das atividades.
Novas técnicas transformam a agricultura
As mudanças não aconteceram apenas na estrutura da feira.
Com a chegada de famílias japonesas na década de 1970, novas técnicas relacionadas à produção de tomate passaram a ser assimiladas pelos agricultores locais. Além do tomate, essas famílias também produziam pêssego, ameixa e flores, contribuindo para a diversificação da agricultura da região.
A partir da década de 1980, o tomate passou a representar uma parcela significativa da economia de Caçador, e o município chegou a se destacar como o maior produtor do Sul do Brasil.
Celso Antônio Tomasi viveu grande parte dessa transformação.
Ainda jovem, começou acompanhando o pai. Mais tarde tornou-se ele próprio feirante e permaneceu ligado à atividade durante aproximadamente 30 anos.
Com o passar dos anos, sua família começou a investir justamente no cultivo de tomate em escala comercial. A mudança fez com que Celso deixasse gradualmente a atividade como feirante.
Enquanto as formas de produção se modernizavam, a feira também mudava.
As carroças deram lugar a outros veículos. A cidade cresceu, supermercados e novos estabelecimentos surgiram, os hábitos dos consumidores se transformaram e outras gerações passaram a ocupar as bancas.
A Feira Livre do Produtor Rural passou, ao longo dessa trajetória, a ser conhecida simplesmente como Feira do Produtor Rural ou Feira de Produtos Coloniais.
2007 a 2010: a crise que mudou a feira
Mais de quatro décadas depois de sua oficialização, a feira enfrentaria um dos períodos mais difíceis de sua história.
Entre 2007 e 2010, as atividades chegaram a ficar paralisadas.
A Vigilância Sanitária realizou ações de fiscalização e apreendeu mercadorias sob questionamentos relacionados à procedência e às condições exigidas para comercialização. Os produtores precisavam se adequar às normas sanitárias e regularizar a produção.
A situação tornou-se um divisor de águas.
Os feirantes se organizaram e buscaram uma maneira de manter a tradição da produção colonial dentro das exigências legais.
Liderados pelo produtor Hans Muller, os agricultores fortaleceram sua organização e, com apoio da Prefeitura e da CIDASC, avançaram na criação de uma legislação que permitisse regulamentar a industrialização e a comercialização dos produtos coloniais.
Em 2010, a legislação necessária à regularização foi aprovada, permitindo uma nova etapa para os produtores.
Desse processo também se consolidou a APFEC – Associação dos Produtores Feirantes de Caçador e Região, responsável pela gestão das bancas. O espaço pertence ao poder público e é disponibilizado aos produtores sem cobrança de aluguel.
A regulamentação trouxe segurança para a comercialização, mas também um novo desafio: conciliar as características tradicionais dos produtos coloniais com as normas sanitárias.
Entre os próprios feirantes surgiram discussões sobre exigências como embalagens a vácuo e informações nutricionais. Para alguns produtores, embora necessárias para atender à legislação, determinadas mudanças acabam modificando a aparência tradicional do produto colonial feito artesanalmente.
A feira entra em uma nova fase
A estrutura continuou sendo discutida nos anos seguintes.
Em 2016, chegou a ser elaborado um projeto para ceder definitivamente o espaço da feira à associação, permitindo que fossem realizadas reformas e melhorias. A iniciativa, entretanto, não avançou naquele momento em razão das limitações relacionadas ao período eleitoral.
Até 2017, a feira funcionava tradicionalmente em dois dias da semana: às quartas-feiras, das 16h às 20h, e aos sábados, das 6h às 10h.
Nos anos seguintes, novos projetos começaram a ampliar novamente a utilização do espaço.
2021: um episódio que marcou a história recente
Em junho de 2021, a Feira do Produtor Rural voltou ao centro de uma discussão sobre as exigências sanitárias aplicadas à produção artesanal.
O episódio envolveu o produtor rural Luiz Petrykowski, conhecido como “seu Luiz”, que tinha 63 anos na época.
Durante uma fiscalização da Vigilância Sanitária, produtos coloniais e queijos artesanais produzidos pela família foram apreendidos por não possuírem o selo de inspeção sanitária exigido para a comercialização.
Conforme as informações divulgadas sobre o episódio, aproximadamente R$ 3 mil em produtos foram recolhidos e parte da mercadoria acabou destinada ao descarte.
Durante a fiscalização houve um atrito com as autoridades. Seu Luiz acabou algemado e conduzido à delegacia por desacato.
A ocorrência ganhou grande repercussão e provocou manifestações de apoio ao agricultor.
O caso colocou novamente em discussão as dificuldades enfrentadas pelos pequenos produtores para conciliar a fabricação artesanal de alimentos com as exigências sanitárias, burocráticas e de inspeção necessárias para comercializá-los.
Décadas antes, agricultores chegavam de carroça e colocavam suas mercadorias junto às calçadas. Agora, os descendentes daquela tradição precisavam lidar com inspeções, selos, embalagens, rótulos e outras exigências que passaram a fazer parte da comercialização de alimentos.
Mais dias de feira e espaço para os orgânicos
A história continuou ganhando novos capítulos.
Entre 2022 e 2023, foi implantada a feira de produtos orgânicos às terças-feiras, das 16h às 20h, criando um espaço voltado à comercialização de produtos cultivados sem utilização de agrotóxicos.
Em outubro de 2023, outro passo foi dado com a implantação da feira também às sextas-feiras.
Com a ampliação, o espaço passou a receber atividades em quatro dias da semana: terças, quartas, sextas e sábados.
Naquele período, a feira voltou a ganhar destaque regional por sua trajetória de aproximadamente seis décadas.
Entre 2023 e 2024, a Secretaria Municipal de Agricultura também realizou a entrega de 27 permissões de uso, oficializando individualmente o direito dos produtores de utilizarem os espaços destinados à comercialização.
Uma tradição que continua viva
Atualmente, a Feira do Produtor Rural reúne cerca de 22 bancas e continua recebendo agricultores de Caçador e de municípios vizinhos, incluindo produtores de Rio das Antas.
Nas bancas, uma mistura de tradição e diversidade revela como a feira se transformou sem abandonar suas origens.
Bolachas alemãs, cucas, pães — alguns preparados com até 11 tipos de sementes —, queijos, salames, geleias, frutas, verduras e legumes fazem parte dos produtos encontrados pelos consumidores.
A relação de confiança construída ao longo das décadas também permanece.
Dados levantados sobre o público da feira indicam que aproximadamente 68% dos consumidores frequentam o espaço semanalmente. Existem clientes que compram dos produtores há mais de 30 anos.
Mais do que um ponto comercial, a feira tornou-se uma marca ligada à própria cidade e à procura por alimentos frescos, naturais e produzidos na região.
Uma história construída por gerações
Entre as carroças que chegavam antes do amanhecer e os veículos que hoje transportam a produção, entre as primeiras mercadorias colocadas junto às calçadas e as atuais bancas, mais de seis décadas se passaram desde a oficialização da feira.
A cidade mudou.
A agricultura mudou.
A maneira de produzir e comercializar também mudou.
Mas a essência que deu origem à feira permaneceu: aproximar quem produz de quem consome.
Dima Tesser Aime, Helena Ermide Aime, Celso Antônio Tomasi, Paulo Baseggio, Joaquim Scolaro, Hans Muller e Luiz Petrykowski são alguns dos nomes que ajudam a contar diferentes momentos dessa trajetória. Ao lado deles estão dezenas de outras famílias que passaram pela feira e contribuíram para que ela permanecesse viva.
Muito antes de possuir endereço fixo, barracas ou qualquer estrutura, a feira já existia na relação entre o agricultor que colocava sua produção na carroça e a família da cidade que esperava pela entrega.
Depois vieram as primeiras reuniões, a oficialização em 1962, as mudanças de endereço, as barracas numeradas, a energia elétrica, as novas técnicas agrícolas, a mecanização, a crise e a paralisação, a organização dos produtores em associação, a regulamentação sanitária, a chegada dos orgânicos e a ampliação dos dias de funcionamento.
Por trás de todas essas transformações existe uma história essencialmente humana.
É a história de homens e mulheres que acordavam ainda de madrugada, enfrentavam estradas e longas distâncias e levavam para a cidade aquilo que haviam produzido com as próprias mãos.
Muitos filhos que acompanhavam os pais ainda crianças cresceram dentro dessa rotina. Alguns continuaram no campo. Outros seguiram caminhos diferentes. E novas famílias ocuparam os espaços deixados pelas gerações anteriores.
Por isso, contar a história da Feira do Produtor Rural também é contar parte da história de Caçador.
Uma história que começou de porta em porta, ganhou espaço nas ruas, enfrentou mudanças, crises e novas exigências, atravessou mais de seis décadas e permanece ligada à identidade, à agricultura e à memória do município.
