A Semana Santa está iniciando. Mais do que uma semana de morte, esta é uma semana de vida. Tempo de graça onde os católicos recordam que a Paixão de Cristo não está apenas ligada a dor, mas, sobretudo ao maior amor do mundo.
Dom Severino Clasen, bispo da Diocese de Caçador, explica sobre a Semana Santa e como vivenciá-la.
– Em que consiste a Semana Santa?
É uma semana que se destaca entre as 52 semanas do ano, porque é nesta semana que nós vivenciamos com muita intimidade a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus. Jesus Cristo se doa, se entrega por nós todos, para que nós tenhamos vida melhor. Por isso, o mundo cristão é convidado a refletir sobre a trágica morte dEle na cruz. Mas ele aceita essa condição de morte para trazer um grande benefício para toda a comunidade, de viver a paz e a harmonia, que são sinais do Reino dos Céus. Ele comprova isso ressuscitando, e na ressurreição já é o reino estabelecido.
– E a maneira de celebrar também foi mudando com o passar do tempo?
Sim, pois existe a cultura tradicional religiosa. A cultura de começar no domingo de ramos, lembrando a entrada triunfal dEle em Jerusalém. Ele é aclamado e ao mesmo tempo já é condenado. Então acontece um processo natural que a Igreja sempre celebrou, lembrando o Tríduo Pascal, de onde vem a força da Semana Santa. Procuramos celebrar estes dias de maneira intensa.
– Como é celebrado Tríduo Pascal e quais celebrações compreende?
O tríduo Pascal começa na quinta-feira santa até o sábado de aleluia. A quinta feira que é o dia da instituição da Eucaristia. Este ainda é um dia festivo, pois lembramos que Jesus se reuniu para fazer a ceia com os discípulos. Jesus institui a Eucaristia. É aniversário da missa. E consequentemente, institui também o sacerdócio, daqueles que estão a serviço da eucaristia. Por isso os paramentos neste dia são brancos, cantamos Glória, é como um afago para estes dias de dor. Dentro da Ceia, o Senhor nos dá o testemunho do serviço, por isso tem a força também do lava pés. Na sexta feira somos convidados a fazer a vigília, momento de oração. Muitos lugares passam a noite toda em vigília, e na sexta feira lembramos a paixão e a morte de Jesus, neste dia não existe missa em nenhuma parte do mundo. É dia de luto, pois foi assassinado o autor da vida. A Igreja quer lembrar isso, que nós também devemos morrer para aquelas coisas que nos levam ao egoísmo, a desunião, as intrigas… Na sexta feira, devemos ter outra postura, evitar os excessos. É uma oportunidade para quem não fez a preparação pascal, procurar o padre para a confissão, preparar-se espiritualmente e participar da celebração da paixão de Jesus, quando lembramos todo o fato histórico que levou Jesus a morte. E nos questionarmos, hoje, quem seriam esses grupos que levam Jesus à morte? É importante refletir isso, pois ainda não estão resolvidos os problemas da humanidade. Jesus deu a vida para resolver nossos problemas, temos Ele como modelo, mas será que estamos dispostos a resolver? Continuamos com brigas e perseguições, tal como aconteceu no tempo de Jesus. Grupos interesseiros, violentos, pessoas corruptas continuam levando Jesus a morte. São estes que levam também a desestabilização democrática. Os promotores da paz e da justiça são chamados de comunistas. São estes grupos que permanecem atuando, este é um aspecto social e religioso que devemos analisar.
Na sexta a noite acontece a procissão do Senhor morto. Temos a impressão de que a morte atrai mais, podemos compreender isso se pensarmos que todos nós temos a experiência da morte, com um familiar, um amigo ou um conhecido, e nos sensibilizamos com a morte. Então a multidão que percebemos neste dia faz sentido, porém não podemos ficar apenas na morte, é preciso passar para o outro dia. Sábado, o terceiro dia, também teremos multidões, porque acontece a festa, a vitória da vida. A noite é a vigília pascal, a alegria, os sinos voltam a tocar, os cantos são alegres, a confraternização deve ser forte.
– E qual o sentido do lava pés?
O serviço. Não pedir que os outros nos sirvam, mas nós estarmos a serviço das pessoas. É este o grande gesto do lava pés.
– No domingo celebramos a vitória da vida. Como nós cristãos devemos celebrar?
Devemos, ainda mais vibrantes, participar do culto ou da missa em nossa comunidade, confirmando nossa identidade de cristãos. É páscoa, Cristo está vivo não mais em carne e osso, mas na espécie do pão e do vinho, da caridade, da fraternidade, do bem comum, do espírito bom que ele nos aponta, isso é ressurreição!
– Quais são os verdadeiros símbolos da páscoa?
E aos símbolos da religiosidade popular? Pra nós o símbolo oficial da Páscoa é a cor branca, é a paz, a felicidade. Há outros símbolos populares, como o coelho, devido a fertilidade, também o ovo de páscoa, assim como Cristo arrebentou a pedra do sepulcro, o ovo também se arrebenta trazendo vida.
– Uma mensagem aos fiéis para essa semana
Que todos possam fazer um grande exercício de conversão do mal para o bem, a mudança de vida para melhor. Que possamos, no dia da páscoa, nos sentir bem com a vida que estamos levando, por estarmos bem com Deus, com a família, com o próximo. Chega de vícios, chega de intrigas, fofocas, traições, confusões, isso é morte. Queremos paz, luz, alegria, vida, entusiasmo, isso é ressurreição, é vida. Não confundir ressurreição com reencarnação. Reencarnação é uma traição ao projeto de Jesus Cristo, Ele não reencarnou e isso está muito claro no Evangelho. Precisamos observar essa alegria pascal, para de fato sentirmos Cristo ressuscitado entre nós, e nós com Ele também ressuscitaremos para a vida eterna. Possamos, como cristãos autênticos, participar em nossas comunidades, vivenciando estes dias com serenidade, recolhidos em oração e contemplação!
Entrevista publicada no site da Diocese de Caçador.
