O crescimento dos escritórios compartilhados no Brasil acompanha o desgaste de quem percebeu que trabalhar de casa nem sempre rende mais
Depois de quatro anos atendendo clientes pela sala de casa, um advogado autônomo começou a notar um padrão na própria rotina.
As manhãs rendiam. As tardes se desfaziam entre a campainha do entregador, a louça acumulada na pia e o barulho da reforma no apartamento de cima. A conta não fechava: mais horas diante do computador, menos processos resolvidos no fim do dia.
O relato se repete em escritórios domésticos por todo o país. O trabalho de casa, adotado em massa durante a pandemia e mantido por boa parte dos profissionais autônomos depois dela, revelou um lado que demorou a aparecer nas conversas.
Nem todo mundo produz melhor longe de um ambiente de trabalho organizado, e parte de quem experimentou a liberdade total da casa acabou trocando o sofá por uma estação de trabalho compartilhada.
O mercado de escritórios compartilhados cresce enquanto o home office perde fôlego
O movimento aparece nos dados do setor. Segundo o Censo Coworking 2024, realizado pela Woba, o número de espaços de coworking ativos no Brasil saltou de 2.443 para 2.986 em um ano, uma alta próxima de 20%. O levantamento aponta que 58,5% dessas unidades estão nas capitais, o que reforça o peso das grandes cidades como centros de negócios.
A distribuição por estado segue a concentração econômica do país. São Paulo lidera com 1.121 espaços, seguido por Minas Gerais (307), Rio de Janeiro (251) e Santa Catarina (192).
O dado catarinense chama atenção em uma economia marcada pela indústria e pelo agronegócio, setores que historicamente trabalhavam longe do modelo de escritório flexível.
O Censo também mostra que 91% dos coworkings atendem profissionais de áreas diferentes ao mesmo tempo, o que cria a mistura de advogados, contadores, designers e consultores num mesmo andar.
Para o mercado imobiliário corporativo, a projeção é de que os escritórios flexíveis passem de cerca de 5% para 30% do total até 2030.
Por que trabalhar de casa nem sempre aumenta a produtividade
A ideia de que a casa é o lugar mais produtivo do mundo não resistiu à prática para muita gente. Uma revisão acadêmica sobre o tema, publicada em periódicos brasileiros, descreve o trabalho remoto como tendo um impacto duplo.
De um lado, eleva a produtividade e a satisfação por causa da autonomia, da flexibilidade e do fim do deslocamento diário. De outro, traz o isolamento social, a dificuldade de desconectar e a necessidade de uma infraestrutura adequada que nem todo lar oferece.
A percepção das empresas confirma a ambiguidade. Dados da Sondagem do Mercado de Trabalho do FGV IBRE indicam que, em 2022, cerca de 30% das companhias notaram aumento de produtividade com o trabalho remoto, enquanto 10,2% relataram queda.
No ano anterior, o saldo era bem mais apertado, com 21,6% percebendo ganho e 19,4% observando perda. A leitura é que o resultado depende menos do modelo em si e mais de como ele é gerido e de onde o trabalho acontece.
O home office segue presente na rotina nacional. Levantamentos do IBGE já estimaram em torno de 7,4 milhões de pessoas trabalhando ao menos parte do tempo de casa.
O problema, para o profissional liberal sem uma equipe por trás, é que a casa concentra todas as distrações ao mesmo tempo: a família, as tarefas domésticas, a ausência de separação clara entre descanso e expediente.
O que muda na rotina de quem migra para um coworking
A primeira mudança é física. Sair de casa para trabalhar recria a fronteira entre vida pessoal e profissional que o home office apagou. O trajeto, mesmo curto, funciona como um marcador de início e fim de jornada, algo que o trabalho na sala raramente entrega.
A segunda mudança envolve a estrutura. Um espaço compartilhado oferece internet estável, sala de reunião para receber o cliente sem o barulho de fundo de uma casa e um endereço comercial que separa a vida pessoal do trabalho.
Para quem atende público, a diferença entre receber um cliente na cozinha e recebê-lo em uma sala de atendimento profissional pesa na imagem do negócio.
Segundo especialistas que atuam em coworkings Concept Offices, parte da procura recente vem justamente de autônomos que cresceram durante o período remoto e chegaram a um limite dentro de casa.
São profissionais que precisam de um ambiente para concentrar, mas também de salas para apresentar projetos e fechar contratos, sem o investimento de montar um escritório próprio do zero.
A terceira mudança é o convívio. Trabalhar cercado de outros profissionais reduz o isolamento apontado nas pesquisas como um dos pontos fracos do home office.
O networking não acontece por obrigação, e sim no café da manhã, na fila da copa, na conversa rápida entre uma reunião e outra, que muitas vezes vira indicação de cliente.
O perfil de quem está fazendo a troca
O profissional liberal é o nome mais comum dessa migração. Advogados que atendem por hora, contadores que precisam de privacidade para tratar de números, consultores que vivem de reunião, designers e arquitetos que recebem clientes para apresentar projetos. São pessoas que não têm vínculo empregatício com uma empresa, mas precisam de uma estrutura profissional para operar.
Para esse grupo, alugar uma sala comercial inteira costuma ser caro demais e pouco flexível, com contrato longo, caução, mobília, conta de luz e internet por conta própria.
O coworking resolve esse impasse ao diluir o custo da estrutura entre vários ocupantes, com planos que vão da estação fixa ao uso por hora de salas de reunião.
A conta que passou a fazer sentido
O argumento financeiro é o que costuma fechar a decisão. Em vez de assumir sozinho o custo de um ponto comercial, o profissional paga por aquilo que usa, com contrato flexível e sem despesas de instalação.
O Censo Coworking 2023 já apontava que um espaço típico no Brasil fatura, em média, R$ 305 mil por ano, sinal de um mercado que deixou de ser experimento para virar segmento maduro.
Há também a economia menos visível. Quem tem um endereço fiscal e comercial em uma região valorizada transmite credibilidade ao cliente antes mesmo da primeira reunião.
Em capitais, estar em um complexo empresarial de boa localização vira um ativo de imagem que dificilmente caberia no orçamento de um escritório próprio.
O que avaliar antes de escolher um espaço
Antes de assinar qualquer plano, vale comparar alguns pontos concretos. A localização precisa fazer sentido para o cliente, não só para quem trabalha.
A estrutura de salas de reunião e de atendimento individual define se o espaço atende quem recebe público com frequência. A qualidade da internet e o nível de ruído do ambiente impactam diretamente a concentração.
A flexibilidade do contrato também merece atenção. Planos que permitem começar com uma estação compartilhada e migrar para uma sala privativa conforme o negócio cresce evitam que o profissional fique preso a um formato que não acompanha o ritmo dele.
A escolha entre casa e coworking deixou de ser uma questão de moda. É um cálculo sobre onde cada profissional rende mais, atende melhor e gasta de forma mais inteligente.
Para quem descobriu que a sala de estar tem limite, o escritório compartilhado virou o caminho mais curto para recuperar a produtividade que o home office prometeu e nem sempre entregou.
