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Pé chato pode dificultar exercícios e atrapalhar processo de emagrecimento

Deformidade que reduz o arco do pé sobrecarrega articulações durante a caminhada e a corrida e leva muitas pessoas a abandonar a atividade física antes de ver qualquer resultado

A decisão de voltar a caminhar costuma vir acompanhada de uma promessa simples: meia hora por dia, sem pressa, para perder o peso acumulado nos meses parados.

Em cidades do Meio-Oeste catarinense, onde o frio intenso afasta boa parte da população das ruas durante o inverno, a chegada de dias mais amenos enche praças, pistas e calçadas de quem quer retomar o movimento.

O que poucos esperam é que a dor chegue antes do resultado. Depois de alguns dias de caminhada, surge um incômodo na sola do pé, um cansaço incomum nas pernas e a tentação de desistir.

Para parte dessas pessoas, o problema não está na falta de preparo físico nem no excesso de empenho. Está na estrutura do próprio pé. O pé chato, também chamado de pé plano, é uma das alterações mais frequentes do aparelho locomotor e uma das que mais passam despercebidas até o momento em que a dor aparece.

A condição não se resume a uma curiosidade anatômica. Quando o arco do pé não cumpre sua função de amortecer o impacto, cada passada transmite mais carga para tornozelos, joelhos e quadris.

Em quem está acima do peso e decide começar a se exercitar, essa sobrecarga se multiplica logo nas primeiras semanas, justamente quando a motivação ainda é frágil.

Quando o arco do pé não sustenta o corpo

O pé plano é a condição em que o arco longitudinal medial, a curvatura interna que vai do calcanhar à base dos dedos, aparece reduzido ou ausente. Com isso, quase toda a planta do pé toca o chão durante a pisada.

O arco funciona como uma mola natural: absorve o impacto a cada passo, distribui o peso do corpo e ajuda no equilíbrio e na postura. Quando essa estrutura cede, a mecânica da caminhada muda por inteiro.

A prevalência é alta. Um estudo conduzido em Maringá, no Paraná, avaliou indivíduos de diferentes faixas etárias e identificou pé plano em 14,75% deles, com índice ainda maior entre crianças.

Levantamentos clínicos apontam que cerca de 80% da população apresenta algum tipo de alteração nos pés ao longo da vida, e que na maioria dos casos o tratamento só é procurado quando já existe dor crônica ou um problema secundário instalado, como uma entorse de repetição ou uma dor persistente no joelho.

“Parte dos casos é de origem congênita, presente desde a infância. Outra parcela é adquirida na vida adulta, quando estruturas que sustentam o arco, sobretudo o tendão tibial posterior, perdem força e deixam o pé desabar de forma progressiva”, afirma Dr. Bruno Air, especialista em pé na região de Goiânia.

Essa segunda forma, hoje descrita pela ortopedia como deformidade colapsante progressiva do pé, costuma avançar devagar e em silêncio, o que faz com que muita gente conviva anos com a alteração sem saber.

Por que a deformidade atrapalha quem decide se exercitar

A relação entre pé plano e exercício físico tem uma explicação mecânica. Sem o arco para amortecer, o pé tende a girar para dentro a cada passada, num movimento conhecido como pronação excessiva. Esse desalinhamento força tendões, ligamentos e músculos a trabalhar além da conta para estabilizar o corpo, o que gera fadiga precoce e dor.

Quando a atividade escolhida envolve impacto, como corrida, saltos ou aulas mais intensas, a sobrecarga aumenta. Forças anormais geradas por pés chatos, mesmo nos graus mais leves, criam demandas repetitivas sobre as articulações.

O resultado costuma aparecer na forma de fascite plantar, dor no calcanhar, tendinites e desconforto que sobe para o joelho e o quadril. Não é raro que a pessoa interprete esses sinais apenas como falta de condicionamento e insista, agravando o quadro.

O ciclo é conhecido nos consultórios de ortopedia. Quem tem pé plano e começa a se exercitar sente dor, atribui o problema ao próprio corpo despreparado, reduz o ritmo ou para de vez.

A interrupção precoce da atividade física é uma das principais razões pelas quais tantos planos de emagrecimento não saem do papel.

O momento de procurar uma avaliação

Reconhecer os sinais cedo muda o desfecho. Dor persistente no arco do pé, sensação de cansaço excessivo nas pernas mesmo após esforços leves, inchaço na parte interna do tornozelo no fim do dia, desgaste irregular dos calçados e dificuldade para manter o ritmo em caminhadas longas são indícios que merecem atenção. Quem percebe esse conjunto de sintomas antes de iniciar uma rotina de exercícios tem mais chance de evitar lesões.

A orientação de quem trata o problema é direta: vale procurar um ortopedista especialista em pé chato para uma análise da pisada antes de adotar uma atividade de impacto, sobretudo em caso de dor recorrente. A avaliação costuma incluir exame físico, observação da marcha e, quando necessário, exames de imagem para definir o tipo e o grau da deformidade.

O tratamento varia conforme cada caso. Em boa parte deles, medidas conservadoras resolvem o problema: palmilhas ortopédicas personalizadas, fisioterapia para fortalecer a musculatura que sustenta o arco, alongamentos específicos, calçados adequados e controle do peso.

A cirurgia fica reservada para situações em que a deformidade é acentuada e o desconforto compromete a rotina, e mesmo aí as técnicas menos invasivas reduziram o tempo de recuperação nos últimos anos.

Um problema que se alimenta do outro

A ligação entre pé plano e peso corporal vai além do desconforto durante o exercício. O excesso de peso é um dos fatores de risco reconhecidos para o desabamento do arco na vida adulta, porque a carga extra pressiona estruturas que já trabalham no limite. Cada quilo a mais se traduz em sobrecarga ampliada sobre o pé a cada passo, num efeito que se acumula ao longo do dia.

Os números mostram o tamanho do desafio brasileiro. Segundo o Vigitel, inquérito do Ministério da Saúde, o excesso de peso passou de 42,6% da população adulta em 2006 para 61,4% em 2023. No mesmo período, a obesidade saltou de 11,8% para 24,3%, mais que dobrando em menos de duas décadas.

Em paralelo, dados da Organização Mundial da Saúde apontam que cerca de 47% dos adultos no Brasil não se exercitam o suficiente, ou seja, ficam abaixo dos 150 minutos semanais de atividade moderada recomendados.

A combinação dos dois quadros cria um círculo difícil de romper. O peso elevado favorece a deformidade no pé. A deformidade gera dor durante a caminhada. A dor faz a pessoa abandonar o exercício.

Sem atividade física regular, o peso tende a subir, e a sobrecarga sobre o pé aumenta de novo. Interromper esse ciclo costuma exigir atenção simultânea ao pé e ao processo de perda de peso, não a um fator isolado.

Emagrecer com acompanhamento, não com pressa

Perder peso de forma saudável raramente é uma questão de força de vontade apenas. A obesidade é uma doença crônica e multifatorial, com componentes hormonais e metabólicos que muitas vezes explicam por que a balança não se move mesmo com dieta e tentativas de exercício.

“Hipotireoidismo, resistência à insulina e outras alterações endócrinas podem dificultar a perda de peso e passar despercebidas sem investigação adequada”, destaca Dra. Camila Farias, endocrinologista em Goiânia.

Por isso, o acompanhamento com um médico de emagrecimento ajuda a identificar causas que vão além da alimentação e do sedentarismo. A avaliação costuma incluir exames de função tireoidiana, glicemia, perfil lipídico e marcadores de resistência insulínica, o que permite desenhar uma estratégia individual.

Em parte dos casos, mudanças no estilo de vida bastam. Em outros, medicações modernas entram como apoio, sempre sob controle médico e dentro de um plano que prioriza resultados sustentáveis em vez de quedas rápidas de peso.

A recomendação dos especialistas é que a perda ocorra de forma gradual, na faixa de meio a um quilo por semana, com mudanças que possam ser mantidas a longo prazo.

Esse ritmo reduz o risco do chamado efeito sanfona e protege as articulações, que sofrem menos quando o emagrecimento acontece sem sobrecarga súbita.

O que considerar antes de calçar o tênis

Começar a se exercitar para emagrecer é uma das decisões mais acertadas que alguém pode tomar pela própria saúde. O cuidado está em não tratar o corpo como se todos os pés funcionassem da mesma forma. Para quem sente dor logo nas primeiras caminhadas, o passo anterior ao exercício é entender o que o pé está sinalizando.

Avaliar a pisada, corrigir o que precisa ser corrigido e, ao mesmo tempo, conduzir a perda de peso com orientação adequada aumenta a chance de a rotina de atividade física se manter.

Pé plano e excesso de peso são problemas tratáveis, e quando recebem atenção conjunta, deixam de ser obstáculo e passam a fazer parte do mesmo caminho. O resultado que não aparecia começa a surgir quando cada etapa recebe o cuidado certo, no tempo certo.

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