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Crônicas do Fruto: SEXTOU. E SE SEXTOU, VAMOS RIR EM MAIS UM ENCONTRO FICTÍCIO ENTRE MOISÉS E LHS

Carlos Moisés comprou um celular exclusivo para atender os deputados estaduais. Estão ali cadastrados os 40 parlamentares catarinenses.

Acontece que os deputados não estão a fim de falar com ele.

Por isso, decidiu também adicionar, nesse telefone exclusivo, o número de Pacácio, o pai de santo de Biguaçu que incorpora o espírito do ex-governador Luiz Henrique e lhe dá conselhos.

Agora, aciona o pai de santo por whatsapp e ele vai até o Palácio da Agronômica, já que o governador está em isolamento por estar infectado pelo coronavírus.

Pacácio gostou de visitar a Agronômica. Já conhecia uma funcionária, aquela que lhe indicou para Carlos Moisés, e foi bem tratado pelos demais servidores da casa.

– Será que o homem vai descer? – perguntou Moisés, falando com a máscara cobrindo-lhe a boca e o nariz.

– Nunca sei. Já lhe disse outras vezes, sou apenas um cavalo. Quem manda são os guias. Vamos esperar.

Moisés não tem mais entregue presentes, como vinhos e queijos catarinenses. O pai de santo disse que prefere dinheiro, porque assim ajuda seus vizinhos nesse momento de pandemia.

Quando recebeu o pai de santo, estava vestindo um pijama com desenhos do gato Garfiled. Depois que pegou coronavírus pode até mandar para lavanderia aquele seu indefectível paletó azul.

O negro estava todo vestido de branco. Apenas a máscara era azul, com o escudo do Avaí. Instalou suas imagens de santo ao lado da escrivaninha do governador, sentou, acendeu o charuto e começou a fumar.

Soltou o Monte Cristo no cinzeiro de prata da biblioteca da Agronômica e já começou a falar com a voz de Luiz Henrique.

– Mudou de ideia? – perguntou Luiz Henrique – Ou nem vamos perder o nosso tempo.

Moisés tomou um susto porque o governador falava com um rompante que nem parecia o seu.

– Mudar, mudar, não mudei. Mas tenho pensado muito nesses dias que estou recolhido por causa do coronavírus. Pensei no que o senhor me disse, que renunciar seria um ato de covardia. Vou manchar a minha história, a minha biografia. Até fiz uma pesquisa e não encontrei ninguém na história de Santa Catarina que tenha renunciado ao Governo. O senhor, já sabemos, teve o motivo que não queria disputar a reeleição no cargo.

O negro olhou para a prateleira da biblioteca da Casa da Agronômica e Luiz Henrique voltou a falar. Já estava com a voz mais calma.

– Não sei se o senhor sabe, mas esses livros aqui da biblioteca podem ser lidos. Lauro Müller também renunciou ao Governo e no dia da posse, para ser ministro de Viação e Obras Públicas do presidente Rodrigues Alves. Também teve um motivo nobre e deve ter cumprido algum acordo político. Renúncia por não querer encarar os problemas, o senhor deve ser o único. Tivemos vários governadores, inclusive eu, que renunciaram para disputar o Senado mas isso por força de lei.

Moisés queria, na verdade, saber se seu conselheiro “do além” tinha alguma informação de bastidores sobre rumos de um possível impeachment seu e da vice Daniela, assunto que circula nos corredores da Alesc.

– Tenho recebido informações que os deputados tratam meu impeachment e o da vice. Sei que mesmo não estando por aqui, o senhor é bem informado…

Luiz Henrique não o deixou fazer a pergunta.

– O seu problema é não falar com os vivos. O senhor ainda não acertou os ponteiros com os deputados? Na nossa primeira conversa eu já lhe disse: deputado quer convênios para seus municípios e cargos para aliados. O resto é discurso da tribuna. Sobre essa história de impeachment, não deveria, mas vou lhe dizer, sua cama está arrumada. O senhor precisa pensar em política. Uma vez, o Leonel Brizola me disse com aquele sotaque de gaúcho: “Tu sabes do que me ocupo quando não estou pensando em política? Eu durmo.” Eu já acho que para ter sucesso nesse negócio é preciso pensar nele até quando se está dormindo. Mas por favor, se quer mudar esse jogo, vai conversar com os deputados. Como estão seus contatos com o Julio?

Pacácio fumava tanto que até os seguranças da Agronômica já estavam incomodados com o aroma forte do charuto.

– Não falei. – respondeu Moisés – Agora com essa quarentena ficou ainda mais difícil. Telefono e ele não me atende.

– E a questão da CPI? – indagou o ex-governador.

Moisés teve um acesso de tosse, mas mesmo assim não tirou a máscara que usava desde o começo da sessão.

– Os deputados me mandaram um questionário para eu responder. Umas perguntas sem maiores problemas. Mas o senhor veja bem, antes de me encaminhar, entregaram para o Upiara, aquele jornalista. Eu fico doido com isso. Está na cara que eles só querem me expor. Por que mandar o questionário para um jornalista?

Pacácio tomou um gole caubói do Cavalinho Branco que Moisés serviu. Ele levou uma cachaça vagabunda, mas preferiu o doze anos que o governador mandou servir. Quando soltou o copo, Luiz Henrique falou novamente, com uma voz bem mais calma que no começo da conversa:

– Essa sua formação militar me irrita, mas aprendi a ter paciência. Essa coisa de coronel fode com meu dia. Essa mania de não entender o trabalho da imprensa lhe atrapalha muito. Informações existem para serem vazadas aos jornalistas. É assim que a roda gira. Seus assessores de comunicação não vazam informações que lhe interessam? O espaço na imprensa é um só. Ocupe também. Caso contrário, só seus adversários ocuparão.

– O senhor me disse que ia pedir umas dicas para seu amigo Róger Bitencourt sobre comunicação – disse Moisés com uma voz envergonhada.

– Está sem tempo. Quando não está de papo com os jogadores de futebol, está com os cantores nativistas ou em outras rodas de conversas. Foi educado, mas mandou eu lhe dizer para procurar os vivos.

O pai de santo está gostando mais das sessões na Casa da Agronômica do que em Biguaçu. Moisés sempre serve uma boa bebida e quando a sessão acaba o jantar está pronto.

A crise de tosse seca por causa do coronavírus voltou e, só depois de se acalmar e tomar um gole de água, Moisés falou novamente.

– Semana que vem estou bom e vou assumir as articulações… Se não vou renunciar também não vou deixar me cassarem. Até porque não existem motivos. Se isso ocorrer é pura perseguição política.

– A Dilma tinha crime? – perguntou Luiz Henrique – E o Collor? Cassado por causa de uma Elba. Se ainda fosse a Ramalho vai lá. Cassação não precisa crime, precisa votos e as fofocas que me chegam, da turma que acompanha a Assembleia, me dizem que há votos de sobra para mandar o senhor para casa. Se for cassado, será por incompetente. Se renunciar, será por covardia. O senhor que gosta de violão deve conhecer aquela música do Ney Matogrosso: ‘se correr o bicho pega e se ficar o bicho come’. Essa é mais ou menos a sua situação. Uma vez o Amin tentou cassar o Paulo Afonso. O MDB se mexeu e colocou cem mil pessoas em frente ao palácio. Os deputados não tiveram coragem de cassar. Sabiam que não tinha crime e viram o povo do lado dele. Mas no seu caso, me parece que não tem os deputados e muito menos o povo.

Moisés estava nervoso. A tosse o incomodava e ele estava com certa dificuldade para falar.

– É por essas coisas da política que pensei em renunciar. Não sei lidar com isso.

Pacácio também tossiu. Tomou mais um gole de uísque e falou novamente:

– Outro dia estava falando com o Moukarzel sobre o senhor e ele me fez uma colocação interessante para que eu pudesse entender suas posições. Disse-me que, dentro do universo militar, o bombeiro é o mais querido da população e o que menos trabalha. O policial militar, por exemplo, ele me disse, arrisca a sua vida o dia todo defendendo a população e é criticado, muitas vezes execrado. Já o bombeiro, salvo quando ocorre uma grande tragédia, fica lá no quartel esperando o chamado. Não por culpa dele, mas quando chega ao local, a tragédia já aconteceu porque ninguém chama o bombeiro antes do incêndio ou antes do acidente. O senhor tem essa cultura. Fica esperando a tragédia acontecer e na política não funciona assim. O senhor precisa se antecipar aos problemas.

Paulo Moukarzel foi comandante da Polícia Rodoviária Estadual no Governo de Luiz Henrique. Por ironia do destino, morreu em um acidente de automóvel em março de 2010, entre Ituporanga e Alfredo Wagner. É um grande amigo do ex-governador.

Moisés tentou justificar a questão dos bombeiros com relação aos policiais militares, mas Luiz Henrique interrompeu.

– O senhor mesmo sabe como valorizei os bombeiros no meu Governo, inclusive criei a carreira independente de vocês que não existia. Mas achei a explicação do Moukarzel interessante.

– O senhor poderia me ajudar pelo menos com o MDB para evitar a cassação – disse Moisés.

– O senhor me pede absurdos. – respondeu o ex-governador – Eu já tinha dificuldade com o MDB quando era vivo, imagina agora depois de morto.

O governador tentou falar novamente, mas teve um acesso de tosse. Luiz Henrique então falou baixinho:

– Não esqueça, a sua cama está arrumada.

Pacácio deu uma baforada no charuto, tomou mais um gole de uísque, tossiu e voltou a falar com sua voz de nortista. Luiz Henrique já estava de volta, tinha conversa marcada com a turma de Santa Catarina para se atualizar das últimas.

#conversasembiguaçu

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